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– por Guilherme Bakunin

A carreira de Claude Chabrol antecedeu à Nouvelle Vague, mas mesmo sem a sustentação concreta de um movimento artístico, o francês já exercia sua liberdade através de releituras de filmes policiais, sempre com a forte base decupal do mestre do cinema, Hitchcock. Em um de seus mais áureos trabalhos (afinal, ele começou sua carreira por volta de 1957), Quem Matou Leda? reflete os gostos pessoais do cinema de Chabrol, agregados ao seu estilo investigativo não apenas sob o prisma policial (a saber, o crime em si), mas pessoal, individual.

Há algo de interessante na construção desse filme. Conhecemos os personagens quase sempre através de opiniões alheias. Pouco a pouco, através de diálogos, as opiniões que cada pessoa tem sobre a outra vão sendo apresentadas às vezes antes mesmo de conhecermos ‘a outra’ em questão. Chabrol dispõe o espectador alheio à narrativa, sempre do lado de fora do intelecto de suas criações (os personagens), gerando uma necessidade cada vez maior de identificação, de conhecimento mesmo, das pessoas ali retratadas. É um jogo profissional de imersão, que trabalha muito com a questão abstrata da mente (a necessidade de se conhecer, o subconsciente atuando) do que a do formal (a vontade de se conhecer, a consciência na ativa – o que parece não ocorrer no filme). Uma psicologia cinematográfica louvável em alguém tão jovem e inexperiente quanto Chabrol e seus 29 anos à época.

A história, irrelevante se analisada separadamente da questão do desenvolvimento dos personagens, baseia-se no assassinato de Leda, linda mulher e amante de Henri. Henri é marido de Thérèse e possui dois filhos, Richard e Elizabeth. A filha está noiva de Laszlo (Jean-Paul Belmondo, ícone eterno da nouvelle vague, sendo gênio marginal antes mesmo de Godard, quem diria). A família, extremamente danificada e prestes a ruir (pois Henri planeja pedir divórcio para casar-se com Leda), se une mais uma última vez para se blindar contra as suspeitas de assassinato, de uma coerência macabra (já que qualquer um da família, talvez exceto por Henri, pode ter muito bem tirado a vida de Leda), mas que pelos laços infindáveis do sangue, são mantidas de lado, em prol de um amor, ainda que tímido, que um nutre pelos outros. Essa é, acredito, a essência daquele final, de uma panorâmica vista por cima, com uma lâmpada, uma luz, que exerce praticamente o papel de gênio guardião daquele lar, que brilha mais forte agora, onde eles enfrentarão o inferno astral da vergonha (com a descoberta do assassino), do que antes, naquela monotonia de luxo e de repulsa.

As pessoas tornam-se mais humanas no final do trajeto nesse filme de Chabrol, com o sacrifício de Leda. O filma é antes de tudo uma homenagem inteligente e extremamente autoral à essência do cinema de Alfred Hitchcock, com a psicologia megalomaníaca e a objetividade clássicas do cinema do Chabrol, que desconstrói aqui o mero suspense, e cria um relato psicológico da mente de um assassino, dos possíveis motivadores do assassinato (a família, as intrigas) e do próprio espectador do cinema. Chabrol nos dá a resposta que queremos, adota um ritmo ágil ao seu trabalho e ainda sim, com o final, não parecemos completamente satisfeitos. Talvez tivesse mais história pra ser contada ali, mas devemos ter em mente que a objetividade de sua intenção é característica marcante do cinema desse francês, que não abriria mão de sua marca por causa de um puro comodismo narrativo, não tão cedo.

4/5

Quem Matou Leda? (À Double Tour) – 1959, França. Dir: Claude Chabrol. Elenco: Madeleine Robinson, Antonella Lualdi, Jean-Paul Belmondo, Jacques Daqcmine, Jeanne Valérie, Bernadette Lafont, Andre Jocelyn, Mario David.

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