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– por Guilherme Bakunin

É bastante claro que Assayas tenha pretendido criar um paralelo relativista com Horas de Verão, filme de 2008. Câmera sóbria, precisa e íntima, a direção do cineasta francês Olivier Assayas vagueia por entre as conversas dos familiares por entre um fundamental final de semana. Poucos minutos são necessários para que se caracterize as personalidades de cada um, para que se crie o conflito que permeará por todo o filme e para que se engatilhe a problemática da narrativa, que é, de uma forma bem superficial mesmo, a história sobre três irmãos que entram em um sutil conflito em decorrência do espólio da mãe recém-falecida.

Feito não com estereótipos, mas com personagens firmes e decididamente originais, o filme assume-se como uma experiência subjetiva, afinal, não é apenas aquela família a ser retratada na tela, é a sua. São todas as famílias, com todas as discrepâncias que cada um de nós provavelmente conhece tão bem. É claro que eu não posso dizer que Horas de Verão é fundamentalmente isso, mas esse é um aspecto que ficou mais claro pra mim e que eu particularmente acredito ser interessante de ser notado. Ainda mais porque não existem personas ultrapassadas no roteiro de Assayas, existem pessoas realmente tridimensionais, que pensam, sentem, falam, discutem, refletem etc. Daí, já se pode notar que a identificação pessoal com o filme não é algo que se cria com assimilações cartunescas e clichês, mas algo bem mais profundo, íntimo, que é justamente o que o filme procura ser.

Outra peculiaridade a ser notada, é como a família é interligada por laços sensíveis, e como esse aspecto de distanciamento abre espaço pra outro assunto moderadamente tratado no filme, o conflito de gerações. Inicialmente, como que se entrássemos de intrusos na reunião familiar, parecemos estar diante de uma família unicamente feliz, talvez não a todo instante, mas feliz ao menos naquele momento. As intrigas e divergências começam a se revelarem de forma cômica, ainda que trágica, pouco a pouco durante a reunião. Com a morte de Hèléne, a mãe (Edith Scob faz um trabalho que merece muitos aplausos), os irmãos se perdem, a família cede. Acredito que a morte de Hèléne seja o momento exato onde a grande família perde de vez espaço para a pequena – mulher/esposo e filhos. É a partir daí que os natais serão em casa, e as reuniões com muita comida e crianças deixarão de existir. Isso, de certa forma, corrobora com uma visão trágica da história, de que tudo que assistimos ali naquele momento, é algo que vai se repetir, inexoravelmente, dentro de algumas décadas, com cada uma das três pequenas famílias ali narradas.

E se tudo que resta da infância no campo e da companhia dos irmãos são meras memórias, inúteis para quem se está de fora (lembro muito de um filme do Woody Allen, A Outra, aqui) e claramente especiais para quem as valoriza, tudo o que o futuro pode reservar é a incerteza, sagaz, anárquica e total. É a incerteza que trás a insegurança (repare que Frédéric reluta a aceitar a passagem do tempo, o desbotamento das memórias, personificados pela casa/venda da casa de campo) e é ela que vai cuspir na sua cara todos os seus defeitos de atitudes.

Horas de Verão é obviamente um dos filmes mais elaborados que eu vi em muito tempo, multi-facetado ao extremo e que exige revisões e muito estudo pra ser devidamente compreendido, mas isso não impede que pouco a pouco, o mosaico da história se revele ao espectador, pedaços individuais de um quadro que jamais será preenchido de maneira absoluta, pois necessita, seja em grande ou pequena parte, da subjetiva de cada espectador pra ser observado em sua plenitude. O momento que isso mais se evidencia, na minha opinião, é a avaliação dos curadores de museus aos pertences da casa de campo. Objetos com um caráter sentimental extremamente grande para a família, e que se torna lixo dentro de um museu. É Olivier Assayas, em mais um trabalho fino e impactante, dando louvores ao deus da subjetividade na narrativa, fazendo algo que nem muitos diretores tem direito de fazer, que é retirar o absoluto da equação de sua obra. Gênio.

5/5

Horas de Verão (L’Heure d’été) – 2008, França. Dir: Olivier Assayas. Elenco: Charles Berling, Juliette Binoche,Jérémie Renier, Edith Scob

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