the beyond

– por Bernardo Brum

Quando, muito tardiamente, descobriram Lucio Fulci em Zombie, foi muito injustamente que só então o mundo pode testemunhar então as obras daquele que levou o gore, aquele gênero extremo querido a cinéfilos tidos como perversos, a uma arte intensa, visceral e agoniante. Não tinha, então, para o refinamento formal de pintor de Mario Bava ou para as hipérboles oníricas de Dario Argento. Quem veio e reinou na década de oitenta foi Fulci e seu cinema fragmentado, ilógico e hipergráfico. Em cada obra-prima sua a lógica vai embora depois de alguns minutos e dá espaço à obsessão com a imagem em movimento, pura e simples.

E nesse esquema de história besta que só serve de pretexto para dar lugar a algo maior – no caso, uma mulher que herda uma mansão mal-assombrada que não demora muito a agir contra quem habita/entra nela – encontra seu grau máximo em Terror Nas Trevas, ou The Beyond, como é chamado na terra do Tio Sam. Aqui, Fulci esculpe com mão ensanguentada o que havia apenas rascunhado em obras anteriores como O Segredo do Bosque dos Sonhos, Zombie e Pavor na Cidade dos Zumbis. Com um roteiro tão furado que parece ter sido esquartejado com um picador de gelo – e fazendo isso da forma mais descarada e sem se importar com o que vão achar – sem resquícios de realidade, sem necessidade de “fazer sentido”, e portanto, sem amarra alguma. Não há o que racionalizar e querer ficar tecendo teoria sobre isso e aquilo é totalmente inútil – e provavelmente faz o velho Fulci dar uma risada sete palmos abaixo da terra.

E o que, então, há para ser visto? Simplesmente, uma atmosfera inacreditável. É incrível o que tiozinho conseguia fazer com sangue falso, música instrumental densa, lentes de contato coloridas, fotografia abusando das sombras, mulheres gostosas gritando, pessoas vestidas de zumbis e bichos escrotos – é tudo insuportavelmente pesado, uma verdadeira tortura mental, um pesadelo elevado ao extremo do espírito carniceiro de um italiano demente e genial (esqueçam dos apenas dementes que faziam filmes de canibais) que desfila sua criatividade em set pieces das mais variadas, como a que um homem cai de uma escada e é devorado por tarântulas, as lutas contra os zumbis que aparecem numa simples mudança de plano, aquele início em uma soberba cor sépia que mostra os danos reais que uma crucificação pode causar (em algo que faz Mel Gibson e sua Paixão de Cristo parecerem especial de fim de ano da Sessão da Tarde) e , então, aquele final opressivo – quando não há mais mansão, hospital, cidade, mundo ou canto da mente para fugir, em um dos finais abertos mais impressionantes da história do cinema.

Poucos filmes com o mesmo conceito podem competir com o de Fulci. E, talvez, nenhum vença. Com um verdadeiro arsenal de como destroçar corpos e mentes, o italiano derrubou cada parede existente entre as convenções pentelhas e o seu cinema. Não há limite. Em um cinema livre como esse, tudo pode existir ou inexistir e lógica é só uma desculpa que o homem usa para não estourar os miolos por uma parede. Felizmente, não o velho Lucio. Esse, ainda bem, esteve bem mais preocupado em espalhar pedaços de cérebro por fotogramas.

Traumatizante. Violador. E os trinta minutos finais, então, são sem precedentes em qualquer arte que já mexeu ou já quis mexer com o obscuro.

Ou aqui: Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981) – Guilherme Bakunin [5/5]

5/5

Ficha técnica: Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’aldilà) –  1981, Itália. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Catriona MacColl, David Warbeck,Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola, Maria Pia Marsala, Laura De Marchi

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