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– por Guilherme Bakunin

Existem plots que nascem com a gente. Todo mundo conhece o plot da cidade supostamente perfeita do interior que acaba sendo na verdade uma conspiração neo-maçonica entre os cidadãos mais velhos desse vilarejo, ou do policial problemático que é transferido de cidade pra livrar os companheiros de sua inconveniência, ou do homem que se dedica demais ao trabalho, etc. É louvável, no entanto, que Chumbo Grosso seja um filme tão surpreendente, já que é uma homenagem a esses e a tantos outros trabalhos, algo perto duma junção de todos os clichês e maneirismos de filmes de ação, que foram aqui reinventados, trabalhados de um prisma bem particular, do promissor cineasta inglês Edgar Wright.

Nicholas Angel é um policial exemplar da força de Londres. Obrigado a se transferir para uma cidade pequena (por ser bom demais no que faz!), ele chega a Sandford, cidade pacata onde os cidadãos parecem se unir para relevar atitudes tidas para Angel como subversivas em prol de ‘um bem maior’. Não apenas os civis, mas toda a força policial da cidade (genialmente constituída por exatamente sete policiais) estão centradas na ideia de alcançar o ‘vilarejo perfeito’. Angel, apesar de ser contrário a ideia, cada vez mais se deixa levar pela ideologia da cidade, até o momento em que uma série de assassinatos – fantásticas homenagens à filmes desse gênero, vale dizer – engenhosos, classificados como acidentes pela perícia policial, o transforma num policial marginal, obrigado pelas circunstâncias a empreender uma investigação por conta própria para solucionar o negócio.

Vale ressaltar que a história é de uma consistência exemplar, porque não deve haver nada fora do lugar aqui. Para todo ato, há uma explicação prévia, ainda que veloz. O final, caravilhosamente bem construído, encontra sustentação numa barraquinha de tiros no festival da cidade, ainda que Chumbo Grosso, sendo a homenagem que é, poderia se dar ao luxo de mimetizar filmes pauleiras mesmo de ação. Mas Edgar Wright não se coloca como fã. O cineasta é um profissional, homenageia, sim, mas não se deixa afetar por vícios nem por defeitos, ainda que esteja se inspirando em filmes, por exemplo, dirigidos por Michael Bay.

Como parte da influência/homenagem, a edição do filme é exageradamente frenética. Mesmo quando não há cenas de ação, a impressão dada pelo diretor é que estamos diante de explosões, tiros e perseguições, onde o som e os cortes em cenas triviais colaboram na construção atmosférica de um filme simplesmente foda, muito bem construído e desenvolvido (reparem que os sobrenomes dos personagens remetem diretamente à sua função), ainda que ele, o filme, queira mesmo é mandar tudo à puta que pariu, sendo vulgar, intenso e explosivo. Chumbo Grosso é terceiro filme de Edgar Wright, o segundo que praticamente todo mundo viu (o primeiro longa, de 1995, é mais obscuro), não é tão engraçado quando Todo Mundo Quase Morto, mas reservadas as peculiaridades de cada um, é tão bom quanto. Vejam esse filme.

Filmes ruins de ação nunca mais serão o mesmo pra vocês. Sério.

4/5

Ficha técnica: Chumbo Grosso (Hot Fuzz) – 2007, Reino Unido/França. Dir.: Edgar Wright. Elenco: Simon Pegg, Martin Freeman, Nick Frost, Billy Nighy, Timothy Dalton, Jim Broadbent.

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