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– por Guilherme Bakunin

John Carpenter é um diretor versátil, trabalha com histórias e atmosferas variadas, mas sempre com uma imponente vertente no suspense. Nesse, que é um de seus primeiros trabalhos, Carpenter preocupa-se em criar um ambiente que reflete essa sua preferência, mas nem por isso o trabalho pode ser considerado fechado. Isso porque Assalto à 13ª DP é fortemente incrementado por comédia, romance e drama, uma dosagem imperfeita, mas gloriosamente corajosa.

O início é maravilhoso. Pouco a pouco, sem pressa, os personagens vão sendo apresentados. São pessoas diferentes e desconexas, não se conhecem e alguns deles não chegarão a se conhecer. É o campo de batalha sendo formado ali na nossa frente, o prelúdio para as explosões e tiroteios que viriam mais ou menos nos 40 minutos finais. Carpenter não mede esforços nessa longa introdução, e cria um clima de latência que, céus, funcionou bem pra caramba.

Em curtas palavras, a história consiste em um grupo de pessoas que em decorrência de algumas circunstâncias, ficam trancafiadas numa estação de polícia desativada, com um grupo surrealmente numeroso de jovens arruaceiros como uma ameaça constante a vida de cada um deles. Não existe antagonismo, já que o herói do filme é um mitológico bandido, que luta até o fim ao lado de um incorruptível tenente recém-promovido. Essa desconstrução de valores não é uma novidade, mas com certeza é algo legal de se assistir.

Os dois maiores méritos do filme são a introdução dos personagens e a consolidação do suspense claustrofóbico (dois momentos do filme que acabem sendo meio-e-consequência um do outro), onde os personagens ficam enclausurados na DP. Pelo perigo iminente, qualquer coisa pode acontecer e qualquer um pode morrer e é exatamente essa a sensação tida pelo espectador. As quatro paredes da delegacia são um ambiente tão fundamentado pro suspense que Carpenter se dá ao luxo de sair dele diversas vezes, pra mostrar a ‘ação’ acontecendo em outros locais da cidade. Mas como já mencionado, há pontos fracos na dosagem de gêneros e momentos, piadas fora de hora e de tom, bordões deslocados e romances acompanhado de diálogos que são altamente dispensáveis. Além disso, grandes cenas de ação existem, sim, no filme, em contraste com outras sequencias (como a final) que pediram mais intensidade. Se foi da intenção de Carpenter construir uma espécia de anti-clímax, eu nunca vou saber, mas de qualquer forma, poderia ter ficado melhor.

Porém, nada muito grave e que influencie de forma relevante no resultado final, que é positivo. Assalto à 13ª DP marca uma fase transitória na carreira de John Carpenter. Com esse filme esperto, o diretor conseguiu mais visibilidade e melhores financiamentos para seu trabalho, que melhorou, sem que, porém, tenha abandonado suas raízes modestas. Até porque, simplicidade jamais deve ser encarada, no cinema pelo menos, como sinônimo de algo mais fraco. Carpenter é prova viva disso.

4/5

Ficha técnica: Assalto à 13ª DP (Assault on Precinct 13) – 1976, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Austin Stoker, Darwin Joston, Laurie Zimmer, Martin West, Tony Burton, Charles Cyphers.

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