short cuts
– por Bernardo Brum

Short Cuts é o Uivo (o poema de Allen Ginsberg) do cinema. Sem querer comparar duas artes e mídias totalmente distintas entre si, a proposta, a visceralidade, a importância são bastante similares. Também, não dá para se espera mais nada em uma Los Angeles à beira do apocalipse, passando por pragas de proporções bíblicas. E o ser humano, enquanto isso, anda perdido pelas ruas em meio à pandemias de doenças transmitidas por insetos, cavalarias de helicópteros armadas com remédios e gases suspeitos e terremotos, tentando escapar da mediocridade, do tédio, da solidão, e só querendo ser feliz no meio de tanta loucura.

Não existe dramaturgia fácil, concessões, clímaxes ou redenção no filme. Pois Short Cuts é turbilhão vivo de narrativa fragmentada, de pessoas tristes e comuns sem rumo na vida em um mundo que sempre parece estar com os dias contados. Tudo é uma rotina no filme, as pessoas saindo para trabalhar, o confeteiro de bolo que fica passando trotes, o apresentador de televisão frio como pedra, a moça do telesexo que levanta uma grana mas não deita para uma safadeza com o marido, que é um limpador de piscina, tem a garçonete de meia idade tendo que lidar com o seu marido, um taxista beberrão, tem a palhaça e o seu marido pescador, o policial que trai a mulher toda hora, mulher esta que posa nua para sua amiga, artista plástica que tem um marido neurótico com a infidelidade de sua cônjuge, a cantora de jazz, uma perua velha e amarga, apreciada pelo taxista beberrão que não dá atenção para a sua filha, que joga basquete e toca violino…

É tudo tudo tão comum em certos momentos que parece difícil acreditar, nas nossas mentes sedentas por ilusionismos cinematográficos, que um filme de três horas com mais de 20 personagens desses tipos tão comuns consiga ser interessante.  Mas é.

Mas há gritos, música e uma erupção de sentimentos todo o tempo e o tempo todo. Porque é, essencialmente, um filme com uma visão sombria da vida. Apesar de tanta mediocridade imperante, Short Cuts também é caótico. Há atropelamentos, há assassinatos, há defuntos sendo encontrados, há negligência, há reconciliações, há separações, há erros médicos, há muita bebedeira, há muita discussão com pessoas dizendo o que não queriam, enfim, em meio à cidade grande, são tantos que se esforçam para controlar a vida, mas ninguém consegue impedir uma das grandes verdades – que o mundo, além de ser indiferente, é incontrolável. O amor e a dor, a desgraça e a boa nova, tudo acontece ao mesmo tempo, interligando sentimentos, fatos e pessoas, numa cadeia complicadíssima e sempre progredindo,  sem teoria que possam regê-la.

Por sua narrativa descontrolada e múltipla, Short Cuts não termina. É um filme cheio de arestas, cheio de perguntas, pontas soltas, confusão aos montes, guiadas por mão de mestre, que nunca fica entediante. A forma como Altman editou essa confusão não faz o espectador ficar atordoado, pelo contrário. Nós somos convidados a participar daquele mundo, acompanhar alegrias, tristezas, decepções, traumas, delitos, desgraças, sorte, azar, dar risada, chorar, sofrer… De forma tão profunda que fica difícil acreditar que, de fato, um filme que tenha uma visão sombria pode ser tão ou mais humano que filmes dito otimistas.

Assistir ao testemunho da vida de Altman é uma divina comédia do desajuste, uma verdadeira Odisséia não-épica. Nós descemos ao inferno várias vezes e sentimos o gosto de enxofre na língua porque, diabos, tantas dores juntas é simplesmente catártico, um verdadeiro delírio coletivo para uma só mente absorver. E não precisa nem de duas ou três telas passando diferentes histórias. É uma alternando com a outra, e de forma tão natural e itensa que quando tudo acaba, nós temos a sensação de termos sido completamente destruídos, atropelados pela energia vital e sensibilidade artística de Robert Altman.

E claro, assistir Short Cuts também é uma experiência de sublimação. Por tudo o que somos e por tudo o que podemos e queremos ser, pelo que poderíamos ter sido, pelo que esperamos da história, dos personagens, das suas frustrações e realizações, e do cinema. Por que, afinal, o que é Short Cuts senão um filme sobre a vida e tudo o que existe dentro dela? Dá para se sentir bêbado com Tom Waits. Dá para sentir Juliane Moore gritando, sem calças, na sua frente. Dá para se irritar com o egoísmo e covardia de Jack Lemmon como se a coisa toda fosse com a gente. Dá para se pintar de palhaço e passar o terromoto dentro de uma piscina de hidromassagem. Nos projetamos ali e sentimos o gosto agridoce de ser humano.

E claro, como não podia deixar de ser, mais do que vida, mais do que reflexão, mais do que inovação, mais do que uma descida sem volta na cabeça de uma (de Altman), duas (dele e do autor do livro que inspirou, Raymond Carver) e várias mentes (deles, dos personagens, da nossa…), também é cinema dos melhores. Aliás, diria eu, dá para dizer que o cinema existe para que obras como Short Cuts venham à luz. Mas, também, dá para dizer que é uma daquelas obras que justificam todo o cinema. Enfim, não dá pra chegar em um consenso ou resposta exata, especialmente afirmações tão subjetivas que nem essa. Ainda não tenho tanta moral assim.

Mas quer saber? Que se dane. É assistir, absorver, beber, chorar, trepar e fazer merda junto com eles. Incomensuravelmente bom. Não dá pra definir nada aqui. Se não assistiu, caia pra dentro.

5/5

Ficha técnica: Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts) – 1993, EUA. Dir: Robert Altman. Elenco: Andie McDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Zane Cassidy, Julianne Moore, Matthew Modine,  Anne Archer,  Fred Ward, Jenniffer Jason Leigh, Chris Penn, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins, Lily Tomlin, Tom Waits, Frances McDormand, Peter Gallagher, Annie Ross

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