bodydoublemax

– por Guilherme Bakunin

É falsa a idéia de que Dublê de Corpo é uma esmera homenagem à Alfred Hitchcock. É clara e livre e levemente inspirado em dois filmes do mestre (como todos devem saber, Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai), mas isso não significa nem um pouco que o filme de De Palma esteja abaixo dessas grand masterpieces do Hitch. Muito pelo contrário, pois pra mim, Dublê de Corpo é (um pouco só) mais cinema. Brian De Palma, mais uma vez, avoca Hitchcock.

A verdade é que Dublê de Corpo é uma desconstrução completa da arte de filmar, dirigir e estar em um filme. Nada é realidade e nada é ficção, tudo é cinema. Jack Skully é um ator e está interpretando um vampiro num filme de baixo orçamento, até que numa cena, dentro de um caixão, Skylly tem um ataque claustrofóbico: distúrbio concedido por um trauma de infância, como iremos descobrir mais a frente. Dispensado mais cedo do trabalho, volta pra casa e encontra a mulher na cama com outro homem. Desempregado, sem casa e sem família, Skully recebe o apoio repentino de uma nova amizade. Sam Bouchard, também ator, oferece ao amigo um apartamento para morar, pra passar uns dias. No apartamento, Skully se coloca na posição ‘voyeurítica‘ do espectador, ao observar através das LENTES de um telescópio, uma espécie de show erótico da vizinha. Mais uma das poderosas metalinguagens do filme, dessa vez fundamentada pelo Janela Indiscreta, aspecto deste filme que De Palma toma para seu próprio e, com imagens poderosas, atinge o fim pretendido.

Como fim, De Palma pretendeu fazer mágica. Porque essa é a única palavra que pode descrever de fato a experiência de Dublê de Corpo. As lentes, tanto a artificial como as naturais – os olhos – de Jack Skully não visam apenas um mistério real. Estão vendo, na verdade, uma história orquestrada, nos mínimos detalhes, por alguém. Jack Skully é nós, está assistindo a um filme, uma peça preparada apenas pra ele. Esse é o primeiro reflexo. Outra atitude do cineasta em Dublê de Corpo é destruir absolutamente a realidade dentro de um filme. Nos créditos iniciais, não estamos vendo apenas um vampiro encaixotado, estamos vendo alguém filmando esse vampiro; ainda nos créditos, não é uma pradaria que se encontra atrás da logo do filme, é na verdade um painel. Essa desconstrução repetidamente feita ao longo do filme, reflete o objetivo do grande cinema do De Palma: o choque com a beleza de imagens, que não estão atadas a verossimilhança nem estão fundamentadas em qualquer base monótona e real mas estão livres para ‘viajar’, ”alargar’ e andar por onde e como quiserem. O filme, visto por esta ótica, é quase que um manual. Não de regras opressivas para se entender melhor os filmes do cineasta, mas um manual com apenas um aviso, para ser lido e relido a cada vez que se vê o nome do diretor nos créditos: liberte-se do mundo, experiencie.

Não é para menos que o filme acabe sem respostas. Isso mesmo, não há resposta para absolutamente nada. Durante a projeção, esposas traem maridos, maridos assassinam esposas, planos são milimetricamente pensados e postos em prática e nada disso possui qualquer motivação. É magnífica a ilusão que De Palma passa de estar fazendo, sim uma história no plano do ‘real’. Quando Skully liga para a polícia pra relatar o crime recém-desvendado de Sam Bouchard, por exemplo, aparentemente há um flashback que explica, através de imagens, o plot da primeira parte de Dublê de Corpo. Quase que sem perceber, o espectador acredita nesses flashes. Bom, eles são uma mentira. A mágica do diretor escandalizou-se aí, mais uma vez, e demonstrou um enorme talento do De Palma para lidar com o público de uma maneira geral, que mesmo sem estudar o filme a fundo, procurando compreender as intenções e méritos do trabalho como um todo, pode sair dessa experiência bastante satisfeito.

Dublê de Corpo é um estudo mitológico do cinema, a arte favorita de De Palma. Além de estudar a mecânica dessa arte, ele usa seu filme para refletir a condição atual as pessoas e retrata, segundo alguns com ‘condescência‘, segundo outros com imparcialidade, uma geração, suas manias, seus gostos, sua moda, etc. Beijos transformam-se em odisseias expressionistas, casas flutuam em montanhas, fantasmas falam ao telefone e nós, como espectador, só podemos admirar uma das grandes conquistas metalinguísticas que o cinema pôde nos oferecer até aqui, uma obra-prima clássica de um gênio. Um brinde, não à amizade, mas à Hollywood!

5/5

Ficha Técnica: Dublê de Corpo (Body Double) – 1984, EUA. Dir: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melaine Griffith, Greg Henry, Deborah Shelton.

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