– por Bernardo Brum

Assistir O Beijo Amargo foi uma das experiências mais desoladoras, cinematograficamente falando, que já experimentei. A sensação de sonho quebrado e pesadelo formado que Sam Fuller conseguiu imprimir em cada fotograma é simplesmente genial. A cada novo plano novo revelado pela decupagem, a cada movimento de câmera, a cada diálogo, a cada gesto, enfim, testemunhamos uma espécie de parábola desencantada sobre a terra das oportunidades.

Nos primeiros minutos, é impossível entender qualquer coisa – uma mulher (não apenas uma mulher, mas Constance Towers) espanca um homem. O homem reage, puxa seus cabelos, e revela que, na verdade, seus cabelos são totalmente raspados. O pinguço cai no chão e ela pega uma pequena quantia do dinheiro que o mesmo carrega. Uma mulher careca, pancadaria, bebedeira, jazz, câmera na mão – acho que eu só vi forma melhor de começar um filme em Crepúsculo dos Deuses, que começa com um cadáver boiando na piscina narrando a própria morte.

Só mais tarde que vamos descobrir que essa mulher se chama Kelly, uma ex-prostituta que, procurando fugir da vida que levava, se esconde numa cidade do interior. Lugar onde, claro, que os valores tradicionais americanos reinam. Ela não resiste e trabalha, pela última vez, com o cabeça da polícia na cidade. A partir daí, tenta levar uma vida nova, trabalhando como enfermeira em um hospital de crianças deficientes e tornando-se noiva do jovem milionário mais importante da cidade.

Claro que, se tratando de Samuel Fuller, amargo e azedo como só ele, algo teria de dar errado, e dá. Até hoje, uma das cenas mais sinistras do cinema é quando, feliz da vida, Kelly chega naquela casa que, àquele momento, é carregada de preto e branco, luz e sombras, e não, não estamos na Transilvânia. Estados Unidos, terra das oportunidades, mesmo. Uma garotinha, que sorri e sai correndo. O jovem milionário tentando se desculpar com aquela oratória furada e cruel de quem já chegou no mais alto nível de sua psicose. Tudo parecia dar certo, até Fuller jogar aí a questão de aceitar a hipocrisia. E em seguida vem um assassinato. A cena é tão bem resolvida que pode ser considerada, com alguma folga, como uma das set pieces mais cruéis e agressivas do cinema americano, e o melhor, filmada com técnica refinadíssima, onde a sugestão ao espectador é uma realidade muito mais cruel do que o mero escancaro.

O roteiro segue, a partir daí, em ritmo frenético, acusação atrás de acusação, briga atrás de briga, pânico, medo, tristeza, solidão, desolação e reviravoltas o tempo todo. As tramas complicadíssimas do noir dessa vez convergem em poucas e eficientes tramas principalmente de personagem, e não de situação e ação, que com a força imagética de Fuller, faz de O Beijo Amargo algo muito além de um noir estilizado. Ele rompe, sem delicadeza alguma, essas barreiras de gênero e subgênero e utiliza-se apenas do aspecto de história de Dashiell Hammett e da fotografia expressionista, para fazer um dos filmes com mais culhões da face da terra.

Sim, que outro filme do ano sessenta (aliás, que filme dos dias atuais) teria coragem de mostrar crianças aleijadas sonhando em andar? A falta de medo de ser considerado filho da puta de Fuller é mais do que nítida ao gravar o esforço de andar e o sonho de poder fazer isso à vontade em períodos muito próximos de tempo tão desavergonhadamente que fica difícil não ficar meio perplexo com toda a situação. Porém, Sam vai muito além de mostrar sonhos de crianças problemáticas. Do início ao fim, é uma bomba relógio pronta para detonar, e esse é um exemplo até superficial.

Se hoje as pessoas acham demais Lynch, em meio ao seus conflitos fílmicos de identidade e personalidade, aproveitar também para desconstruir a sociedade americano em Veludo Azul, Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e por aí vai, deveriam voltar um pouco mais atrás e descobrir de onde vem grande parte desse clima macabro, subversivo, bizarro, único, doentio. Sim, de filmes como este de 1964.

Uma das frases mais famosas ditas por Samuel Fuller, em O Demônio das Onze Horas, de Godard, é que “o cinema é um campo de batalha”, onde instituições hipócrita e gananciosas não tem vez contra a bomba de efeito moral lançada pelo diretor. Com uma ex-prostituta foragida como a pessoa mais ética de uma pequena cidade. E depois de tantas explosões, só resta ir embora, sumir no horizonte, e deixar toda aquela loucura para trás, de uma forma que só o carinha saberia enquadrar, fotografar e encontrar tamanho significado com poucos, mas concisos e precisos planos. Com todos os afetos, desafetos e conhecidos. Se a sociedade é tal máquina de moer ossos, keep on movin’.

5/5

Ficha Técnica: O Beijo Amargo (The Naked Kiss) – 1964, EUA. Dir: Samuel Fuller. Elenco: Constance Towers, Anthony Eisley, Michael Dante, Virginia Grey, Patsy Kelly, Betty Bronson, Marie Devereaux, Karen Conrad, Linda Francis, Barbara Perry

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