blow out

– por Bernardo Brum

Muitas vezes, De Palma utilizou a história como mero pretexto para que pudesse construir toda aquela atmosfera arrasadora, claustrofóbica e increditável de seus filmes. Assim, a história de um transformista assassino (Vestida Para Matar) não era nada mais do que um jeito de desfilar sequências que de tão tecnicamente impressionantes deixavam o espectador numa espécie de êxtase maldito, em que tudo testemunhado era intenso demais para que pudesse ser ignorado numa assistida descompromissada. Nisso que diferia de Hitchcock – o inglês valorizava sim as histórias que contava, e preenchia com mão de mestre tanto a linha principal da história quanto os McGuffins com generosas e discretas ironias e subversões.

E acusado por muitos anos de ser apenas aquele que resolveu pegar e levar em frente o título de “mestre do suspense”, muitos esqueceram que cineasta simplesmente genial, autoral e maluco é De Palma. Talvez toda a desconstrução dessa idéia tenha começado mesmo em Um Tiro na Noite, antes mesmo de Dublê de Corpo. Se antes (e até depois em alguns casos) Brian resolveu enxergar o cinema por uma lente hitchcockiana, aqui ele resolve enxergar o mundo pela lente de outro dos gênios supremos e totais do cinema, Michelangelo Antonioni.

Claro, ele prefere centrar a homenagem na história, trocando o fotógrafo de Blow Up pelo registrador de sons para filmes classe B feito pelo subestimado (até por ele mesmo) John Travolta que sem querer grava o som de um assassinato político onde só sobrevive uma prostituta (Nancy Allen)  e se vê cada vez mais envolvido com a situação, até descambar num final completamente tétrico e depressivo. A movimentação de thriller é mantida, ao contrário da desconstrução narrativa dos filmes do italiano.

Mas aí que em um quesito De Palma supera Coppola, que também havia feito uma história com mote parecido com Blow Up e era quase que um Janela Indiscreta para os ouvidos, A Conversação. Se a narrativa imagética de Hitchcock era tão forçuda que mesmo se ouvíssemos o áudio em iraniano com legendas em japonês, eu aposto que qualquer um com uma compreensão razoável da língua inglesa que assistisse o filme em questão de olhos fechados entenderia Um Tiro na Noite de cabo a rabo. Simplesmente, e não tem para Jacques Tati ou cineastas assim, o status de obra-prima do filme é obtido porque usa cada som produzido na tela de um jeito tão pensado, criativo e arquitetado para deixar o espectador em frangalhos que o fato de ter a audição em dia e ouvir cada segundo do filme é uma experiência simplesmente única.

Claro que Brian também não economiza nos aspectos técnicos visuais. E nisso, também temos um dos Brian De Palma mais inspirados: movimentos e travellings impossíveis e que desprezam essa noção da câmera como um olho humano, o recurso da tela dividida usado de forma tão torturante que é capaz de deixar zonzo o mais desavisado, tudo sem a mínima consideração com a sutileza que alguns cinéfilos tanto fazem questão e cagando e andando para os espectadores mais sensíveis. O tempo todo nós somos questionados como seria ouvir várias mortes sucessivas, sempre chegar atrasado ao local, e como isso poderia afetar um homem que conheceu uma paixão do jeito mais esquisito. E que a perde do jeito mais bizarro.

A conclusão é, simplesmente, um dos finais mais tristes do cinema, e que não poupa o espectador. Tanto ela, que nada tinha a ver com a história, tanto ele, que, negligente, foi um dos grandes responsáveis por tudo, doam suas essências a um filmeco de terror slasher. Ela oferece seu grito de morte, ele eterniza o grande trauma e perda da sua vida. E esse é um eco que persiste por muito, muito tempo. Após acabar com os nervos, De Palma destroça o coração do espectador. Filho da mãe.

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5/5

Ficha Técnica: Um Tiro na Noite (Blow Out) – 1981, Estados Unidos. Dir: Brian De Palma. Elenco: John Travolta, Nancy Allen, John Litgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May, John McMartin

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