– por Guilherme Bakunin

A Dama na Água é mais uma grande polêmica na carreira do Shyamalan. Surgiu em 2006, logo depois do insucesso de A Vila, onde a crítica, que já vinha ‘trabalhando’ para destruir os filmes anteriores do cineasta, resolveu pegar pesado de verdade, criticando dura e enganosamente o filme por aspectos que são nem um pouco válidos em uma análise (mas A Vila é assunto para outro texto). Não é de se admirar, portanto, que A Dama na Água seja tão livre, onde Shyamalan se desprende de formas e timings pra criar uma fábula moderna, com aspectos já vistos em outros trabalhos, mas estudados de forma completamente nova.

O filme segue Cleveland Heep, zelador de um condomínio fechado, que passa seus dias consertando tudo que há de errado nos apartamentos dos inquilinos. Heep percebe, no entanto, que alguém tem usado a piscina do condomínio à noite, quando é proibido. Averiguando o problema, ele se encontra com Story (atenção ao nome, analogia mais do que óbvia), uma criatura mítica do reino das águas, conhecida como Narf, que deve encontrar o seu receptor humano para entregar-lhe uma mensagem, a fim de restaurar a harmonia entre o mundo dos homens e o mundo das águas. Story, sendo frágil e incomunicável como é, dependerá de Heep para encontrar a pessoa destinada a receber sua mensagem, um escritor.

Com A Dama na Água, Shyamalan ressalta seu virtuosismo técnico, compõe bons e longos planos, introspectivos, que em sua maioria, seguem Heep com interesse, e contam aos poucos a história do personagem. Mas muito mais evidente do que a direção precisa às intenções cineasta é a história que mais chama atenção. Trata-se de um roteiro completamente pessoal, um filme extraído de uma história que o cineasta contava para as filhas (dedicado a elas, inclusive), com traços metalinguísticos evidentes, na pele do escritor que deve sacrificar-se e lançar seu trabalho, em prol de uma contribuição maior, e no arrogante crítico de cinema, seco, limitado e de poucas palavras.

Se a partir de Sinais, Shyamalan começa a estudar melhor o suspense do seu cinema, com um desenvolvimento significativo pela forma como construiu A Vila, é em A Dama na Água que o diretor trás uma revolução em questão de linguagem. O filme é completamente livre – e erra, ainda que pouco, por excesso de liberdade – e permite que o cineasta re-estude o suspense, os questionamentos ideológicos de fé e o miticismo de seu cinema de maneira vanguardista. Todos os elementos naturais da filmografia do cara estão sendo tratados, em menor ou maior grau, nesse trabalho quase épico do indiano. Não é de surpreender que esse seja o filme mais criticado do Shyamalan. É claramente, pra mim, um exemplar de Hollywood como há DÉCADAS não se via: um filme a frente do seu tempo.

4/5

Ficha Técnica: A Dama na Água (Lady in the water) – 2006, EUA. Dir: M. Night Shyamalan. Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Jeffrey Wright, Bob Balaban

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