
- por Fábio Visnadi
Se o cinema de Shyamalan é um cinema de encontros, “A Vila” parece denunciar essa colisão de uma maneira mais ambígua, não apenas pelo fato de ocasionar um certo encontro do mundo in/out dentro dos acontecimentos vivenciados pelos personagens, mas também por conseguir aliar o desenvolvimento natural decorrente das duas propostas majoritárias do cineasta: a forma e a temática.
Se em “Olhos Abertos” ainda enxergamos um cineasta não tão seguro de si quanto ao modus operandi de sua veia autoral, em “A Vila” nos deparamos com um Shyamalan mais consciente de si e de seu cinema. Tomando a desconstrução da storytelling que o cineasta vem formulando desde “O Sexto Sentido”, encaramos o que possivelmente poderia ser referenciado pela crítica norte-americana como “falhas de roteiro” de maneira mais autorreferente e irônica. Como os jump cuts e outras “brincadeiras” sonoras e visuais que Jean-Luc Godard usava em sua obra para desconstruir a forma do cinema nos anos 60, Shyamalan utiliza dos famosos plot twists à exaustão, mas ao contrário do que poderia se pressupor, nunca se levando a sério. Há quem diga que seja até uma maneira provocativa de ironizar a si própria dado a popularização do cineasta como um diretor de reviravoltas.
Suposições à parte, os plot twists da Vila nem podem ser realmente considerados plot twists per se. Desconstruindo o próprio recurso, o cineasta nos entrega as principais revelações pouco após a primeira metade do filme, enquanto as outras duas menores funcionam apenas como recurso dentro da narrativa à medida que o espectador vai adquirindo uma visão mais panorâmica do que acontece dentro da vila. Não é um filme pautado nas surpresas, elas servem apenas como recurso narrativo (como você vê em filmes com a cronologia inversa ou alterada como Pulp Fiction ou o fraco Amnésia). Contudo, diferentemente da obra de Tarantino ou Nolan, o modo como o Shyamalan revela o roteiro é sutil e mascarada.
Na realidade, pode-se dizer que ao lado de Michael Mann e Abel Ferrara, Shyamalan talvez seja um dos cineastas mais “tortos” quanto à forma dos últimos tempos. Isso porque essa forma do Shyamalan se esconde atrás de um cinema mais convencional e desse modo mais difícil de ser notada. Não tomemos essa forma no sentido mais estritamente parnasiano da palavra. A forma de Shyamalan é uma forma de se pensar o cinema, de se pensar a estrutura da storytelling através da própria storytelling. E tanto o cinema de Mann e Ferrara quanto o de Shyamalan “esculpem o tempo”, não da mesma maneira que Tarkovsky, mas esculpem de um jeito moderno, mais próximo à conceitualidade do que ao tradicionalismo.
Parece que o tempo, tanto em “A Vila”, quanto em “Miami Vice” e “Blackout” é estritamente psicológico, seguindo um fluxo narrativo despreocupado com a construção de sequências ou a coesão narrativa e sim com o que realmente importa ao longo do percurso. Uma coesão não tão anárquica, digamos assim, mas nada convencional. Uma coesão inventiva. Dito isso, é através dessa semi-coesão narrativa que Shyamalan insere o espectador no universo da Vila.
Se através desse cinema de antíteses, o cineasta viria a trabalhar sempre o encontro de duas naturezas distintas (e principalmente a natureza enquanto mãe em “Fim dos Tempos”), em “A Vila” essa representação é mais subjetiva, onde se discute mais sobre a essência do ser humano e de um encontro mais interior, no que diz respeito à inocência e a violência e não apenas no que concerne à fora da vila x dentro da vila. Na realidade, quando uma análise mais distante sugere até mesmo uma certa referência à alegoria da caverna de Platão do ponto de vista antropológico, quando se adentra essa fábula de Shyamalan podemos encontrar, de certo modo, um estudo mais sociológico da violência, como em “Dogville”, de Lars von Trier ou “Dente Canino” de Giorgo Lanthimos, obras separadas por um curto período de tempo (2003, 2004 e 2009).
Através de um desejo de alienação, de se atingir a paz através de uma fé pautada no medo (medo esse, muito recorrente na obra do cineasta), Shyamalan nos apresenta uma espécie de Antigo Testamento em linguagem burguesa, permeado por conceitos sartreanos e situado numa espécie meio anacrônica de Estados Unidos pós-11 de setembro, onde o problema da sociedade é a sociedade e o inferno são os outros.
A diferença dessa análise feita de modo mais individual ou geral é investigada através das duas metades que compõe o filme. Na primeira, antes da revelação, temos o tempo funcionando de maneira acelerada, onde somos apresentados aos personagens que compõe A Vila de maneira homeopática, raramente presenciando diálogos completos (vemos apenas parte das falas, mas não obtemos as respostas daqueles com os quais os personagens conversam), com algumas referências vindas do cinema de Altman ou Paul Thomas Anderson do ponto de vista coletivo.
No entanto, é só através da segunda metade e das revelações apresentadas ao decorrer da obra é que teremos a confirmação do aspecto social composto nos primeiros 45 minutos. Justamente porque a segunda metade da obra parte de um aspecto mais introspectivo, onde (se num primeiro momento não haviam sequências propriamente ditas) observamos uma longa jornada de Ivy Walker em meio a interrupções narrativas que revelem aquilo que a personagem já sabia (através dos diálogos, dessa vez, recíprocos, dos anciãos da vila).
Não é tão importante para o espectador essa descoberta. Apesar do filme ter sido erroneamente caracterizado e vendido como um filme de reviravoltas, mesmo na primeira exibição (mas isso pode ser melhor reparado após uma revisão, onde já se tem a certeza do que acontece dentro da vila), essas descobertas não adquirem grande importância. Essa descoberta é importante apenas para Ivy Walker, a única que pode dar continuidade ao projeto começado pelos seus ancestrais. Mas como eles mandam uma cega ir buscar mantimentos? É aí que Shyamalan dialoga com o espectador novamente de um ponto de vista mais humanista, quando ele chega inclusive a afirmar em entrevistas que A Vila é um filme sobre o amor.
Então enquanto temos um aspecto coletivo para analisar, não podemos nos esquecer do lado mais subjetivo. Ivy Walker foi escolhida por sua bondade, por ser uma das poucas que possuem a mentalidade e coragem dos anciãos para continuar esse projeto e Shyamalan não é um diretor de críticas sociais e sim de temáticas humanistas que dissertam a respeito de fé, espiritualidade, incomunicabilidade. Só que se em Sinais, Corpo Fechado ou A Dama na Água ele nos lembrava que estamos conectados de maneira positiva, A Vila nos oferece uma faceta diferente dessa conexão, onde as nossas vontades individuais de amor e segurança esbarram justamente na convivência diária, no outro (seja através das escolhas realizadas pelos anciãos, ou das escolhas mais individuais, como a de Ivy Walker ou Lucius Hunt).
Desse modo, o encontro que o cineasta promove mais uma vez não fica restrito apenas à superfície e pode sim, ser estendido a diferentes perspectivas, seja através do subjetivo ou objetivo, do interior ou exterior, do social ou individual ou até mesmo das contradições da paz através do medo ou do amor com concessões. Fica a sensação que a reviravolta que Shyamalan promove no seu cinema é mais do ponto de vista humano e estético do que propriamente dentro do script.
5/5
A Vila (The Village) - EUA, 2004. Dir: M. Night Shyamalan. Elenco: Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt, Sigourney Weaver, Brendan Gleeson, Cherry Jones.

