inception-paris

- por Michael Barbosa

Se em Amnésia Nolan entregou um dos filmes mais complexos dos últimos tempos – com direito a narrativa fragmentada – e nos seus dois Batman’s, especialmente em O Cavaleiro Das Trevas, fez um thriller empolgante e intelectualmente desafiador o que se poderia esperar para A Origem era um mix das qualidades de seus dois grandes filmes anteriores e, evidentemente, um pouco de amadurecimento para superar os defeitos destes, como a condução que por algumas vezes perdia a mão e caia no enfadonho – Amnésia – ou então alguns exageros não tão divertidos de O Cavaleiro das Trevas. Quando entrei na sala do cinema para enfim assistir Inception era a hora de acreditar (ou não) no hype.

A primeira coisa que se percebe é que embora emaranhe infinitos acontecimentos com níveis diferentes e afins, remetendo naturalmente à complexidade de outrora aqui ele soa bem mais elucidativo do que eu seus últimos filmes, isto pode trazer ao espectador já apresentado ao seu trabalho duas sensações antagônicas: de que isto é fruto do amadurecimento artístico de Nolan que agora nem sub e tampouco superestima a nossa inteligência e capacidade de dedução. Ou algo mais do tipo “tudo bem, te damos essa dinheirama toda, mas dessa vez as pessoas vão ter que entender o filme”. Prefiro um meio termo, embora o roteiro transforme Ariadne (Ellen Page) quase que em uma muleta dedicada a passar o filme todo fazendo perguntas e tendo insights Nolan consegue ainda assim deixar muita dualidade e algumas várias incógnitas que mesmo quando qualquer resposta pareça mera especulação continua interessante e, sim, estimulante.

A trama em si, embora seja original na medida do possível, não traz grandes novidades, e desde o começo fica claro que é, inegavelmente, um thriller seguro sobre espionagem industrial com o plus de roubar-se as ideias ainda nos sonhos, o que evidentemente deixa tudo bem mais legal e interessante. A novidade vem quando um milionário solicita a Cobb (Di Caprio), especialista nesse serviço sujo, acusado do assassinato da esposa, e por isso afastado dos filhos, pelo processo inverso, no lugar de roubar, inserir uma idéia e daí em diante temos uma empolgante odisséia homérica no mundo dos sonhos.

Visualmente é arrebatador, apoiado por um orçamento estrondoso Nolan desenvolve um admirável exercício estilístico, com uma grande variedade de belos panos de fundo para as cenas. Como quando Paris é explodida, e aí está outra virtude, gozando da liberdade dada pela lógica interna da obra dá-se para algumas vezes ao longo da obra “brincar” de explodir cidades, dobrar ruas e desafiar as leis da física, pela brincadeira em si e por ser de algum didatismo necessário para entender certar nuances propostas pela trama e que se tonarão indispensável para tentar “compreender” o desfecho.

Há de se dizer também que mais uma vez Nolan demonstra excelente direção de atores, Di Caprio – que vem em grande fase, sabendo escolher projetos e emplacando grandes filmes – está excelente como o protagonista Cobb e, curiosamente, está em uma personagem que irrefutavelmente nos remete a seu último papel, Teddy Daniels de Ilha do Medo, estamos novamente na frente de um homem com uma história de amor mal-acabada que o encalça e afeta seu trabalho e seu autocontrole, de toda forma para por aí as semelhanças. O elenco de coadjuvantes é composto por uma série de bons atores, a começar por Ellen Page que vem se firmando como uma atriz competente, passando por Joseph Gordon-Levitt, que se destacou em 500 Dias Com Ela (e comenta-se – ou brinca-se, talvez – que pela semelhança física será o substituto do falecido Heath Ledger no papel de Coringa). Ainda temos Cotillard, Caine, Tom Hardy… Todos bem, mostrando que a junção de direção competente e boa escolha de atores podem dar um belo upgrade.

[ULTRA-MEGA SPOILERS NO PARÁGRAFO DERRADEIRO]

Enfim, Nolan parece bastante orgulhoso de seu cinema complexo, bem feito e absurdamente pretensioso – e não deveria ser por menos. No desfecho da trama aquele velho infalível truque de responder menos do que se perguntou e dar margem às infinitas interpretações e teorias malucas (ou não) de fãs que evidentemente vão extrapolar um pouco na imaginação (é provável pelo menos). O drama aqui é saber até que ponto o aparente final feliz é real, e pára instaurar dúvida o diretor se vale de várias pequenas peças soltas ao longo da história – como o conceito todo bem explicadinho do totem – e usa e abusa de diálogos e cenas pra lá de duais para que o óbvio soe dúbio e ambíguo. Efetivamente se torna impossível cravar e comprovar se aquilo – Cobb retornando ao avião e se reencontrando com os filhos – fora real, se foi fruto de sua imaginação quando perdido no limbo (outro conceito maroto solto pouco antes) ou se, vai saber, foi tudo um sonho ou se então… De fato temos que, independente disso ou daquilo, deixar claro que a experiência de ver Inception – especialmente na tela grande – é agradável e empolgante por si só. Hollywood talvez esteja de frente para, guardadas devidas proporções, seu maior sonho de cineasta desde Spielberg, Nolan parece ser realmente capaz de agradar cinéfilos e críticos e também levar milhões e milhões às salas de cinema, pois é.

4/5

Ficha técnica: A Origem (Inception) – EUA, 2010. Dir.: Christopher Nolan. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe e Michael Caine.


- Luiz Carlos Freitas

Eu juro que já me esforcei muito para entender alguns detratores do Woody Allen, mas desisti dessa batalha ingrata tem algum tempo. Injustamente acusado de “não variar, indo sempre no mesmo tema e com as mesmas abordagens” por tratar das neuroses do homem “apenas” (aspas óbvias, aliás, se observarmos o quanto que o tema é tão mais amplo do que comumente tratado), por vezes ignoram a versatilidade de um diretor que passeou pelos mais diversificados gêneros cinematográficos como poucos (e a comparação com Stanley Kubrick nesse quesito é indispensável). E se com Hannah e Suas Irmãs ele se mostrou (superficialmente) alternando entre dois gêneros específicos (drama e comédia), sua temática e abordagem colocam a obra mais além do que qualquer sinopse ou rótulo de prateleira de locadora possam limitar.

Centrada na família da personagem-título, Hannah (Mia Farrow), uma atriz de sucesso com um casamento perfeito que sustenta (emocional e até financeiramente) suas irmãs, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest) – a primeira, uma ex-alcoólatra em recuperação casada com Frederick (Max Von Sydow), homem muito mais velho e extremamente controlador, a segunda, uma atriz fracassada e drogada que só consegue se apaixonar pelos piores tipos possíveis -, acompanhamos uma situação de possível desequilíbrio quando Elliot (Michael Caine) se revela completamente apaixonado por Lee, sua cunhada, iniciando um romance que pode provocar uma ruptura completa entre a família. Paralelamente, vemos o desespero de Mickey (Woody Allen), um renomado roteirista de TV (e ex-marido de Hannah), que diante da possibilidade de estar com uma doença terminal, tenta de todas as formas possíveis “encontrar Deus”.

Visto de modo quase unânime como uma obra-síntese da filmografia do diretor, é provavelmente sua realização cinematográfica mais completa, uma miscelânea perfeita de seus maiores temas habituais, como casamento e amor (assim mesmo, separados), conflitos de gerações, artistas com carreiras fracassadas, autocomiseração, ética e moral, todos representados pelas arestas que saem de e tornam a um ciclo em Hannah, o centro gravitacional daquela família (e, claro, com o jazz presente e a indefectível Manhattan como um cenário-personagem).

Mas Allen também está nesse filme, não nos esqueçamos dele. E seu personagem, mesmo que orbitando paralelamente e quase totalmente alheio aos demais conflitos da trama, é um dos mais importantes dentre todos. Allen faz de Mickey uma versão extrema de seu personagem mais característico (ele mesmo, de certo modo), uma espécie de cruza de Alvy (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), Sandy (Memórias) e Isaac (Manhattan) que, evoluída, repensa toda a sua pretensa autosuficiência. Por um pensamento consigo mesmo, logo após a saída do consultório médico (“Fique calmo! Você está no meio de Nova York, sua área, cercado por pessoas, trânsito e restaurantes! Como pode um dia, do nada desaparecer?”) seguido de uma crise desesperada (“Meu Deus, estou morrendo!”) que o leva à busca urgente por “Deus”, podemos ver nele somente o ponto em comum a todos os personagens da trama: o sentido da vida.

Allen nunca escondeu que Ingmar Bergman (cujas obras abordavam constantemente os temas existencialistas) era um de seus maiores ídolos. Alguns citam o posterior A Outra como sua maior referência ao diretor sueco, mas aqui todas as questões do vazio existencial (que já se mostraram presentes em trabalhos anteriores do próprio Allen, como Interiores) são trabalhadas com maestria digna do referenciado. A construção de personagens, seus conflitos e o desenvolvimento, mesmo os acompanhando por um período de quase dois anos, são perfeitas, não se perdendo em momento algum (e trabalhados com profundo realismo). A atriz fracassada que busca a oportunidade da sua carreira e estabilidade amorosa, a mulher aprisionada a um relacionamento por conveniência que não consegue sua independência financeira e, pior, pode destruir a família ao se envolver com o marido da irmã, o homem indeciso entre a segurança de um casamento morno ou a paixão nos braços da amante, o cético que procura preencher os símbolos vazios de uma fé que não pode ser simplesmente adquirida; todos compartilham do mesmo sentimento de incompletude, da mesma jornada em busca por uma razão, um sentido às suas vidas, até então, vazias.

Mas Allen não decai sobre moralismos, artifícios bobos ou saídas fáceis. Lembrem-se, Hannah e Suas Irmãs é, acima de tudo, a vida real em tela e, como humanos que somos, não nos cabe exigir perfeição. E a isso, Hannah é chamada atenção. Próximo ao final, quando as três irmãs se encontram em um jantar e começam a discutir sobre os problemas de cada uma, Lee e Holly  a questionam justamente por ser tão perfeita, por não se irritar ou reclamar de nada. Ela é a representação da imagem do perfeito, do pleno, do equilíbrio em qualquer situação, por qualquer causa e de qualquer meio (experimentem ler “Hannah” de trás para frente). E o desenrolar dos fatos nos mostra que seja talvez nessa ocasião de falta, de vazio, que se encontre um possível sentido às nossas vidas, fugindo a busca aos conceitos pré-estabelecidos como corretos ou ideais.

Tal como Sartre definiu, a vida nos leva a fazer escolhas e traçar nossos caminhos, mas ela não nos diz qual o caminho certo ou errado, tampouco nos obriga a trilhar por algum desses. Talvez a resposta para uns não valha para outros, e quem buscava por um grande amor possa se ver feliz e completa com um novo trabalho; talvez quem via na amante mais jovem a realização de seus desejos possa reacender a chama do próprio casamento e o amor, tão forte e implacável, simplesmente se apague aos poucos; talvez quem sentia a necessidade da perfeição para se alcançar a realização de sua vida, agora já se permitia ser imperfeita e, principalmente, largar as rédeas para que os demais possam viver suas vidas imperfeitas; talvez quem agora se punia por ter passado uma vida sem acreditar em nada, largando de lado os símbolos que sempre o foram tão vazios quanto um vidro de maionese (e não o deixariam de ser por mera conveniência), possa se permitir continuar não acreditando em nada tão maior que um amor de marido e mulher, de pai e filho.

Ao fim, Allen não nos dá respostas, apenas mais questionamentos que, de um modo extremamente coeso, nos faz compartilhar do sentimento de seus personagens incompletos, mas sem a menor sensação de vazio, de falta de sentido, porque essa ainda acaba sendo a nossa vida. E, afinal, a vida nunca foi mais (talvez, até menos) que o cinema de Woody Allen.

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5/5

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters) – EUA, 1986 – Direção: Woody Allen – Elenco: Barbara Hershey, Carrie Fisher, Michael Caine, Mia Farrow, Dianne Wiest, Maureen O’Sullivan, Lloyd Nolan, Max von Sydow, Woody Allen, Daniel Stern, Julie Kavner, Joanna Gleason, Bobby Short, Lewis Black, Julia Louis-Dreyfus

- por Bernardo Brum

Curioso perceber que, para maioria esmagadora dos grandes cineastas americanos dos anos setenta, o filtro era o cinema. Com devidas exceções, era uma geração que não explorava os conceitos de romancistas, artistas plásticos e dramaturgos, tampouco construíam o olhar sobre o mundo que criavam através deles. Assim, Scorsese provavelmente nunca pensou em um quadro de algum pintor ou algum conto – ele pensou nos planos de Rastros de Ódio e na narrativa anti-convencional dos filmes do Godard. Spielberg, provavelmente, pouco se lixa para literatura clássica – a beleza reside nos filmes morais e otimistas de Frank Capra.

Brian De Palma não foge à regra – e nem quer, principalmente porque o cara arranjou Hitchcock como filtro. Se em Trágica Obsessão ele conseguiu fazer de Um Corpo que Cai a coisa mais lindamente doentia já filmada, ao reler Psicose – com direito à cena do banheiro e cena explicativa na delegacia – ele fez Vestida Para Matar, obra filmada em puro surto esquizofrênico e êxtase alucinatório. E tira um sarro do espectador o tempo todo – troca a moça aproveitadora por uma coroa desesperada pra dar, a garota frágil perseguida por uma protistuta desbocada, o machão solidário por um nerd vingativo, o detetive lesma por um policial chicano irritante, troca o complexo de Édipo por transsexualismo, por aí vai. Também eleva ao máximo suas câmeras subjetivas, seus campos e contracampos claustrofóbicos, travellings exagerados, dois planos simultâneos, longas sequências sem diálogo nenhum, sonhos jogados a rodo e ao bel-prazer na trama, closes em seios (nham nham) e tudo o que só o cinema do cara pode oferecer.

As últimas sequências só comprovam como essa coisa de cinema pelo cinema funciona. Perturbado, exagerado, escancarado e psicótico assim como seu autor. Cinema no volume máximo, de dar gosto.

4/5

Ficha técnica: Vestida Para Matar (Dressed To Kill) – EUA, 1980. Dir.: Brian De Palma. Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, David Margulies, Nancy Allen, Dennis Franz, Keith Gordon

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