
- por Bernardo Brum
Comparando os quinze minutos iniciais com os quinze minutos finas de Louca Paixão, chegamos a uma certeza: que Paul Verhoeven é um completo demente quando liga uma câmera. Mas um demente apaixonado pelo ofício. Os quinze primeiros minutos são amorais, escandalosos, sádicos e fazem da exposição corporal uma arma para contextualizar o choque. Por outro lado, seu encerramento é impiedoso, melodramático e catártico na mesma medida.
O terreno aqui é o das paixões. E Rutger Hauer, interpretando um escultor obcecado por sexo que passa seus dias em uma mistura desenfreada de mulheres e arte, é cria e criador desse ambiente. Sua rotina inclui esculpir figuras bizarras, humilhar mulheres de bunda flácida, seios caídos e pêlos pubianos frondosos. Mesmo com esse comportamento bastante desregrado, também é um homem neurótico, capaz de perder a vontade de trepar pelos mínimos e mais estúpidos detalhes.
O filme prossegue nessa ciranda bêbada em todo seu desenvolvimento, mesmo depois de sermos apresentados à grande paixão do protagonista, Olga. O filme vai da alegria à amargura, da paixão ao resentimento, do humor negro à dramaticidade over com uma naturalidade impressionante. Apesar de ser comumente visto como um romance, guarda cenas que o público alvo deste gênero pouco estará acostumado a ver – como humilhações dolorosas, momentos escatológicos (alguns deles inclusive envolvendo fezes, vermes e o que mais de bizarro a mente do diretor conseguisse conceber) – mas é transcendendo esse bom gosto que Verhoeven consegue ser mais piegas do que nunca, num bom sentido: um casal que se ama a qualquer custo é apaixonado da boca até o ânus do companheiro. E claro, ao que dá para perceber, ao longo do filme, o casal de protagonistas se auto-destrói de tanto trepar – e demoram meses e anos para inclusive tomarem consciência disso.
E quando isso é constatado no filme, bang – eis que o filme é deformado brutalmente, as roupas aparecem, a escatologia quase some, aquele romance irrefreável do início torna-se escondido por meio de gestos, um assunto que ao que parece só dava um toque de humor negro à trama torna-se um arco dramático quase depressivo orquestrado com uma insanidade e frieza de um completo maluco. Iniciado depois de uma separação, esse ciclo do filme não poupa ninguém, e não sabemos qual personagem o diretor quis punir (a mulher promíscua ou o homem ciumento e rancoroso?)
Em quase duas horas de filme, Verhoeven invade não apenas o psicológico, mas também o físico dos seus personagens – suas resistências ao nojo, suas reações corporais, a degradação de suas formas são testadas ao limite e quem sobra é obrigado a jogar os restos de quem sobrou num triturador de caminhão de lixo (filmado, como aprecia Verhoeven, de forma muito próxima, muito exposta, muito direta). Longe de levantar questões fáceis, o diretor joga no ar o tempo todo perguntas, inclusive no final. O que resta de uma paixão tão maluca? Culpa? Lembrança? Ou apenas sucata, de onde viemos e um dia retornaremos?
4/5
Ficha técnica: Louca Paixão (Turks Fruit) – 1973, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Dolf de Vries, Monique van de Ven, Tonny Huurdeman, Wim van den Brink, Hans Boskamp