- por Allan Kardec

Foi a partir da década de 60 que o cineasta japa Seijun Suzuki buscou em seu cinema experimentações formais em seus filmes sobre a Yakusa (a máfia japonesa). Em A Marca do Assassino, logo de início, percebemos que o cineasta parece debater sua estética com o cinema noir, sua temática com os filmes de gângsters estadunidenses da década de 30. Entretanto, tais procedimentos não se impõem na abordagem do irriqueto Suzuki. Outrossim, percebemos em seu cinema um desapego radical com estruturas narrativas, além de um reflexo – não reflexão, entendam – daquilo que os cineastas da Nuberu Bagu japonesa ansiavam para a sociedade japonesa: libertação sexual e artística, em uma via de mão dupla com os costumes ocidentais, sem nunca perder de vista as tradições nipônicas, visto que tais relações sexuais assumem um caráter misógino no filme, sendo que erotismo imposto pelos estúdios, aparece com requintes de crueldade e sadomazoquismo.

O filme, a história de um matador de aluguel, Número 3, que falha em uma missão e passa a ser perseguido pelo Número 1,  não é apenas puro exercício formal, na medida em que vemos a queda, a transformação de um personagem. A insanidade e o profissionalismo do assassino Hanada (Jo Shishido) vão ruindo em paralelo com o delírio visual da mise-en-scenepsicotrópica de Suzuki; o visual surrealista prende o espectador em seu interessante contraste de luz e sombras. Cria, portanto, a (i)lógica própria do filme. Porém, não há de se perder de vista, o verdadeiro desejo de Suzuki é entreter, fazer o que bem quiser com os elementos fílmicos, a possível reflexão sobre perda de identidade do assassino parece ser apenas uma âncora pra todo esse delírio visual.

À época, Suzuki estava ligado à produtora Nikkatsu. Fazia filmes sobre a yakuza, uma das especialidades dessa produtora de filmes B. A Marca do Assassino opera um ruptura tão intensa com toda aquela produção, que o cineasta acabou por ser afastado da produtora, vindo a ficar por 10 anos em litígio até ganhar na justiça o direito à deposição de cópia de todos os seus filmes na Cinemateca Japonesa, uma indenização, além de um pedido público de desculpas por parte da Nikkatsu.

Talvez o mais radical de sua geração, trilhando ora americanismo e a cultura Pop, ora a estética dos mangá, Suzuki arregaça com tudo, pretende um cinema sem amarras com o verossímil, com o próprio cinema. Um cinema de clima, sensorial, alucinante. É visível a influência em Jarmush – a forma como utiliza a música, além de uma cena de Ghost Dog, além de Tarantino – alguns momentos de Kill Bill I e seu uso de grafismos. Um cinema pulsante, intenso e único. Adjetivar A Marca do Assassino é, sobretudo, reconhecer o talento de Seijun Suzuki em ser criterioso apenas com si mesmo.

5/5

A Marca do Assassino (Koroshi no Rakuin) – 1967, Japão. Dir.: Seijun Suzuki. Elenco: Jo Shishido, Anne Mari, Kôji Nanbara, Mariko Ogawa