- por Fábio Visnadi

Quando as metrópoles já não assumem mais o papel de protagonistas, o mundo artístico e os cotidianos amorosos desaparecem e as ditas comédias de apartamento já não estão mais presentes, eis que Woody Allen abre espaço para um novo modo de exteriorizar suas preocupações, incômodos e receios. Neuroses típicas de um homem moderno. E delas, o cineasta nova-iorquino entende bem, mesmo quando seus personagens estão afastados de seu habitat natural de trabalho.

No entanto, não se pode dizer que as grandes cidades sejam definitivamente seu habitat. Certo seria dizer que Allen trabalha em algum lugar no cérebro, em alguma zona entre o humor e o medo, onde até mesmo obras menos dramáticas (O Dorminhoco, A Última Noite de Boris Grushenko), repletas de esquetes do começo ao fim, dão vazão à neurose do homem da cidade grande. Seja na era do rádio ou num futuro distante. Em Paris, Nova York ou Barcelona. Zelig é assim.

Em formato de falso documentário, a obra narra o cotidiano de Leonard Zelig, um homem sem personalidade que adquire, como um camaleão humano, a aparência das pessoas que se encontram à sua volta. Os contornos aqui são cômicos e funcionam naquele esquema conhecido do Allen onde uma piada sucede a outra. Os acontecimentos do filme se passam entre os anos 20 e 30 e por isso o filme trabalha com um aspecto visual bem próprio daquele período, como se fossem realmente arquivos pessoais que remontassem à história de Leonard Zelig.

No entanto, nem por isso às neuroses próprias de Alvy Singer ou de Isaac Davis estão menos presentes. Estão camufladas, assim como a personalidade de Zelig, que será desdobrada ao decorrer do filme. Camufladas nas nossas personalidades, afinal, todos têm um pouco de Zelig. Numa sociedade onde o status intelectual, a posição ideológica ou a crença religiosa definem o nível de tolerância que será aplicado a determinados indivíduos, Zelig adquire uma postura típica do homem atual: ele é tudo. E ao mesmo tempo não é nada.

Leonard Zelig rompe essas limitações interpessoais. Não se camufla apenas no que concerne às questões puramente mentais. Ele adquire traços indígenas, orientais, pardos. Passeia por classes sociais, por crenças e costumes. E aqui e ali vai adquirindo um pouco de cada um. É médico e paciente. É a tentativa de se abraçar o mundo em sua totalidade e ser confrontado com um vazio quase crônico, camuflado pelo diretor e pela sociedade através da arte e do entretenimento, através do cômico, medidas paliativas que permitem ao ser humano tornar sua existência ao menos um pouco mais suportável.

Contudo, a sociedade não permite enxergar em alguém características tão presentes nela. O problema de Zelig incomoda justamente por ser a representação física de todas as falhas humanas presentes num coletivo ansioso e temeroso. Quando os problemas decorrentes da personalidade (ou falta dela) de Zelig passam a exigir tratamento, acompanhamos uma doutora numa relação de projeção-identificação forte com o paciente, onde descobrimos o porquê de sua exteriorização física-psicológica. Trata-se da neurose. Da pressão quase desumana que é exercida constantemente pela sociedade.

Os anos 80 (época em que Zelig foi rodado) eram assim. Obras como Clube dos Cinco retratavam um desejo muito grande do ser humano de camuflar suas verdadeiras opiniões em prol de um lugar social, um lugar no meio de um grupo. Antes do advento da internet, quando era mais raro encontrar mundo afora indivíduos com que se identificasse, quando qualquer característica marcante na personalidade de alguém que não fosse legitimada pelos padrões sociais eram vistas como problemas psicológicos; o homem camaleão estava mais presente. Não que não esteja atualmente, mas as possibilidades do ser tudo ao invés do parecer multiplicaram-se.

O irônico é que Zelig não se camufla em mulheres, algo bem característico do restante da obra de Allen, na qual elas são vistas de maneira romântica e pouco racional, onde vemos sujeitos intelectuais e extremamente racionais preferirem ninfetas e mulheres pouco inteligentes às grandes donas de seu cotidiano. Pra ele, por mais próximas que estejam, elas ainda estão distantes do resto do mundo, numa espécie de escudo que lhes permite algumas falhas e alguns momentos de fraqueza.

Pra Zelig não, essa fraqueza não é permitida. Assim como pra Allen. Resta então dar vazão à ela através da arte, do humor, do cinema. Válvulas de escape para uma sociedade desajustada, onde um indivíduo supostamente normal é que é problemático e onde as coisas estão todas viradas de pernas pro ar.

5/5

Ficha Técnica: Zelig (Zelig)  -  EUA, 1983. Dir: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan.

- Por Allan Kardec Pereira

Naked é um filme sem plot. Sem roteiro – em um sentido mais tradicional desse elemento fílmico. Sem destino. Sobre o vazio e o fracasso. Em certo sentido, seria um “Asas do Desejo” ao avesso passado no submundo londrino. O que me agrada é que, para além de uma tentativa de lho fazer refém – pensemos filmes do filão pedante recente: Von Trier, Nóe e alguns Haneke -, Mike Leigh busca construir um personagem  humano ao mesmo tempo em que fantástico. Johny tem muito de humano, mas também tem muito de divino – ou maldito, tamanha sua ambiguidade.

Uma primeira associação a se fazer é com um personagem de Dostoievski, especialmente “O Homem do Subterrâneo”. Ambos partilham de uma ‘supremacia intelectual’ perante a sociedade. Igualmente se colocam como vítimas, por meio de seus discursos revelam-se homens solitários, pertubados, delirantes – nesse caso, a verborragia típica do cinema inglês casou perfeitamente com o discurso de Johny. Enquanto por meio de uma pesada narrativa, o escritor russo criava uma São Petersburgo sombria, onde as pessoas haviam perdido muito do sentimento de compaixão, Leigh cria uma Londres soturna, onde as pessoas igualmente se afastam, solitárias. Nesse caso, como tratamos de cinema, o diretor imprime um uso de Fotografia espetacular, baseado na predominância de cores pesadas, em especial o azul-escuro, o preto, o cinza. Estilização que casa bem com a proposta do filme. Por outro lado, a trilha sonora – um defeito corrente nos filmes do diretor – parece intrusa, repetitiva, invasiva mesmo.

O filme inicia com Johny estuprando uma mulher – cena antológica! -, roubando um carro e fugindo de Manchester. Lá, nosso (anti)herói se estabelece na casa de uma amiga. É então que começa a trajetória de nosso anjo-demônio-messias errante pelas ruas de Londres, passeando por vários tipos. Refletindo sobre e sendo reflexo de uma Londres pós-Tatcher e toda a rudeza das pessoas frente as relações interpessoais. Johny é, acima de tudo, um homem só, já que qualquer tentativa de relacionamento humano vai chocar com algum princípio dele ou de outrem.

Uma cena memorável do filme é a discussão de Johny e o vigia de um prédio, onde há todo um diálogo em torno de questões existenciais. O processo poderia descambar em um desfile de pedância, não fosse a forma eloquente, ao mesmo tempo em que segura de Johny, o que nos faz crê que para além do mal estar do homem moderno que ele evoca, é ele mesmo o sintoma mais evidente daquilo. Sendo assim, “Naked” acaba por extrapolar o âmbito da situação inglesa daquele contexto e chega a um ponto de vista universal, profundo. Se e nos desnuda, de forma plena. Não há como ficar imune.

4,5/5

Ficha Técnica: Nu (Naked) – Reino Unido, 1993. Dir. Mike Leigh. Elenco: David Thewlis, Lesley Sharp, Katrin Cartlidge, Claire Skinner.

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