
- por Fábio Visnadi
Quando se fala em Abel Ferrara as primeiras coisas que vêm a mente são os conflitos quase que barrocos do diretor nova-iorquino. Nessa colisão entre o humano e o divino, entre o carpe diem e os cuidados com a vida após a morte, somados à fragilidade do homem pós-moderno e a sua responsabilidade de resolver tudo, o cineasta nos brindou com obras que, mesmo não tão escancaradas, demonstravam esse impasse que sempre o atormentou.
Em “O Rei de Nova York”, ele brincava sutilmente com um jogo de luz e sombras, ao melhor modo barroco, tratando de um sujeito que recém-saído da prisão buscava sua redenção divina de modo humano. Em “Vício Frenético” ele aliava os vícios e obsessões humanas do policial vivido por Harvey Keitel a uma investigação feita de modos não ortodoxos sobre o estupro de uma freira, buscando desse modo, mais uma vez, sua salvação. Já em “Gangues do Gueto”, essa dualidade que vinha sutilmente sendo trabalhada ao longo dos anos, acaba sendo escancarada numa espécie de “A Felicidade Não Se Compra” cru e visceral.
Assim como no conto de Capra, os protagonistas vivenciam a decadência, a frustração de não ter feito a vida tomar o rumo que queriam. Mas enquanto o primeiro apresentava uma saída no melhor estilo american way of life de ser, positiva e esperançosa, no filme de Abel o mundo é podre e cruel, e a redenção não vem em forma de um anjo, e sim disfarçada de um policial corrupto.
Ao observar o casal principal, o qual não são concedidos nomes, apenas referidos nos créditos como “O marido” e “A esposa”, pode-se perceber que o caminho que os levou até o estado de traficantes não foi por escolha, nem pela busca de uma vida mais fácil, foi apenas porque o mundo os empurrou pra esse esgoto mental. Não são o estereótipo de traficantes, são seres humanos comuns. Buscam, apesar dos caminhos que tomaram, cuidar dos laços afetivos, educar a filha normalmente, suprir os desejos da criança, enfim, serem bons pais. No entanto, o mundo não lhes deu chances.
Não são aprofundados, o contexto está nas entrelinhas. Recheando seu ‘conto de natal’ com cortes crus e utilizando o rap como trilha sonora, Abel Ferrara insere o espectador num mundo onde não há tempo ou espaço pra se desenvolver. O tempo é curto. Após ter seu marido sequestrado pouco antes do Natal, ‘a esposa’ tem que juntar dinheiro de todo canto para libertá-lo.
A escolha do Natal não foi aleatória. Ferrara usa a comemoração cristã mais importante, época na qual milagres acontecem a torto e direito nos filmes e todo mundo recebe uma segunda chance, para representar a dualidade entre o ser humano passional e a sua redenção mais uma vez. Ao conseguir o dinheiro pedido pelo sequestrador, este faz um pedido: que o casal saia do mundo do crime. Pode parecer simples, mas desse modo Abel Ferrara mais uma vez brinca com esse jogo barroco, em que a segunda chance vem das mãos de um sequestrador.
Mais tarde, descobre-se que esse sequestrador era na verdade um policial corrupto, que talvez tenha tido sua segunda chance mas tenha acabado mais uma vez na escória do ser humano, escória essa que é tendência intrínseca a espécie. Será que o casal também saberia aproveitar sua chance? Na sequência final um vazio e uma sensação iminente de uma história não terminada. Porque na verdade, todo mundo sabe, que se Frank Capra tivesse filmado os dias posteriores de George Bailey, veríamos o personagem vivido por James Stewart caminhando em direção a latrina novamente.
4/5
Ficha Técnica: Gangues do Gueto (‘R Xmas) - França/EUA, 2001. Dir: Abel Ferrara. Elenco: Drea de Matteo, Lillo Brancato, Lisa Valens, Ice-T.