- por Bernardo Brum

Adaptar o romance mais desvairado de William Burroughs, Almoço Nu, é uma tarefa que poderia ser considerada absurda por qualquer um. A magnum opus do beatnik é um dos livros mais complexos que se tem notícia: um livro escrito à base dos delírios heroinômanos do artista, mais de 200 páginas de parágrafos soltos e historietas fragmentadas de conteúdo bizarro, escatológico, chocante e herético.

É um livro totalmente deslocado do que é considerado “lugar-comum”: dificilmente os habituados  a histórias tradicionais, com início, meio e fim e temas comportados que não ofendem ninguém conseguirão avançar mais de 30 páginas através das linhas descrevendo sexo anal, promiscuidade, vício em drogas, toneladas de KY, assassinato, insetos gigantescos, governos falidos e governantes pervertidos, uma orgia de imagens que atira o leitor de cidades sujas a florestas ameaçadoras com a passagem de uma linha.

Uma visão perturbadora da sociedade, uma distopia do presente, sobre uma sociedade presa em um projetor de filme que só tem um rolo e que está condenado a passar o mesmo filme de sangue e perversão moral de novo e de novo: um conceito estético tão desconfortável que até 1991, ninguém teve coragem de adaptar. Até surgir outro artista igualmente controverso, David Cronenberg, e da polêmica obra, parir Mistérios e Paixões (que por sinal tem, de longe, uma das traduções mais imbecis já vistas em terra brasilis).

Essa não tão curta introdução serve para que o leitor do post tenha uma mínima noção dos temas que será confrontado na hora de ver o que um dos diretores mais narrativamente inventivos dos últimos 30 anos fez com a obra de Burroughs. O filme inventa bastante para poder costurar um mínimo fio narrativo  entre a maré de alucinações, cruzando a história com a própria biografia de Burroughs, retratando episódios tão diferentes quanto a sua amizade com outros artistas, o seu isolamento em países exóticos e bizarro assassinato acidental de sua mulher, ocorrido quando os dois, drogados, tentaram brincar de William Tell com uma pistola.

Na história, Bill Lee, escritor aspirante e exterminador de pragas, corre o risco de perder o emprego por baixa produtividade. Quando acaba por sentir falta de grande estoque do seu inseticida, eis que descobre que sua mulher está viciada na substância, botando tudo pra dentro, intentando se sentir “chapada feito Kafka”. Introduzido no uso da substância por ela e seus amigos, ele embarca numa viagem sem volta, primeiro assassinando sua mulher e logo em seguida, enquanto tenta ser escritor, descobrindo que sua máquina de escrever é uma espécie bizarra de inseto que o convoca para ser agente em uma guerra. A guerra contra o pensamento racional, para ser mais exato.

Dando uma olha de volta no tempo, David já tinha abordado isso, lá atrás, enquanto ainda estava no Canadá. Já em Calafrios, de 1975, dezesseis anos antes de ele pisar em solo Burroughsiano, era contada a história de um cientista que criava um vírus que tinha por missão destruir o senso de civilização repressor e liberar os instintos de violência e sexo que a humanidade insistiu ao longo dos últimos milhares de anos em repreender. Nesse meio tempo, mudou a estética, cresceram os orçamentos, mas as obsessões formais e temáticas não moveram um centímetro em qualquer direção.

Aqui, a história não é muito diferente. A inspiração dos folhetins policiais baratos é evidenciada na trama de conspiração que é praticamente uma troça do diretor com a típica paranóia estadunidense que quase botou fogo em si mesmo e/ou no mundo por várias vezes – segunda guerra mundial, guerra fria, guerra do Vietnã, do Golfo, do Iraque, às drogas, ao álcool… Para Cronenberg, a idéia de conspiração é um delírio psicótico coletivo. Pessoas drogadas de informação manipulada, presas dentro de um arquétipo e de uma estética pré-determinadas.

O combate contra a mentalidade reinante é encenada com pistolas antigas, roupas da primeira metade do século, com uma paleta cromática opaca e berrante, que só faz por reforçar a atmosfera grotesca que circunda as personagens. O agente outsider, Bill Lee (William Burroughs ou William Tell?) pode até detectar em certo momento que sua cruzada não passa de um delírio. Mas isso não é um pretexto para não continuar em sua jornada munido com uma máquina de escrever transmorfa, uma maleta cheia de seringas e uma coleção de impulsos primais na cabeça.

Com Gêmeos – Mórbida Semelhança, Cronenberg deixou de lado por alguns anos, a ficção científica bizarra (que só seria retomada em eXistenZ, em 1999) e baseou seus filmes em um presente ainda mais absurdo. Saíram de lá os delírios drogados deste Mistérios e Paixões, os fetiches suicidas de Crash – Estranhos Prazeres e o exotismo de M. Butterfly onde, em uma fase de amadurecimento narrativo onde suas obsessões sobre a psique, a  carne e sua interrelação foram sublimadas em filmes onde o tema era o esfacelamento da identidade.

Seja em duas personalidades próximas que acabavam por se confundir e fundir, uma histeria massiva de liberação de desejos sexuais ou a aventuras ultra-secretas de um escritor outsider, a década de 90 foi, além de irretocável, fundamental para termos o David Cronenberg que conhecemos hoje.  E Mistérios e Paixões é um dos seus maiores exemplares, e um filme obrigatório para todos os admiradores de cinema abertamente radical, contestador e anacrônico.

4/5

Ficha técnica: Mistérios e Paixões (Naked Lunch) – Canadá, Japão, Reino Unido – 1991. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Judy Davis, Ian Holm, Roy Scheider, Julian Sands, Julian Richings, Peter Weller, Monique Mercure, Robert A. Silverman

- por Fábio Visnadi

Quando se fala em Abel Ferrara as primeiras coisas que vêm a mente são os conflitos quase que barrocos do diretor nova-iorquino. Nessa colisão entre o humano e o divino, entre o carpe diem e os cuidados com a vida após a morte, somados à fragilidade do homem pós-moderno e a sua responsabilidade de resolver tudo, o cineasta nos brindou com obras que, mesmo não tão escancaradas, demonstravam esse impasse que sempre o atormentou.

Em “O Rei de Nova York”, ele brincava sutilmente com um jogo de luz e sombras, ao melhor modo barroco, tratando de um sujeito que recém-saído da prisão buscava sua redenção divina de modo humano. Em “Vício Frenético” ele aliava os vícios e obsessões humanas do policial vivido por Harvey Keitel a uma investigação feita de modos não ortodoxos sobre o estupro de uma freira, buscando desse modo, mais uma vez, sua salvação. Já em “Gangues do Gueto”, essa dualidade que vinha sutilmente sendo trabalhada ao longo dos anos, acaba sendo escancarada numa espécie de “A Felicidade Não Se Compra” cru e visceral.

Assim como no conto de Capra, os protagonistas vivenciam a decadência,  a frustração de não ter feito a vida tomar o rumo que queriam. Mas enquanto o primeiro apresentava uma saída no melhor estilo american way of life de ser, positiva e esperançosa, no filme de Abel o mundo é podre e cruel, e a redenção não vem em forma de um anjo, e sim disfarçada de um policial corrupto.

Ao observar o casal principal, o qual não são concedidos nomes, apenas referidos nos créditos como “O marido” e “A esposa”, pode-se perceber que o caminho que os levou até o estado de traficantes não foi por escolha, nem pela busca de uma vida mais fácil, foi apenas porque o mundo os empurrou pra esse esgoto mental. Não são o estereótipo de traficantes, são seres humanos comuns. Buscam, apesar dos caminhos que tomaram, cuidar dos laços afetivos, educar a filha normalmente, suprir os desejos da criança, enfim, serem bons pais. No entanto, o mundo não lhes deu chances.

Não são aprofundados, o contexto está nas entrelinhas. Recheando seu ‘conto de natal’ com cortes crus e utilizando o rap como trilha sonora, Abel Ferrara insere o espectador num mundo onde não há tempo ou espaço pra se desenvolver. O tempo é curto. Após ter seu marido sequestrado pouco antes do Natal, ‘a esposa’ tem que juntar dinheiro de todo canto para libertá-lo.

A escolha do Natal não foi aleatória. Ferrara usa a comemoração cristã mais importante, época na qual milagres acontecem a torto e direito nos filmes e todo mundo recebe uma segunda chance, para representar a dualidade entre o ser humano passional e a sua redenção mais uma vez. Ao conseguir o dinheiro pedido pelo sequestrador, este faz um pedido: que o casal saia do mundo do crime. Pode parecer simples, mas desse modo Abel Ferrara mais uma vez brinca com esse jogo barroco, em que a segunda chance vem das mãos de um sequestrador.

Mais tarde, descobre-se que esse sequestrador era na verdade um policial corrupto, que talvez tenha tido sua segunda chance mas tenha acabado mais uma vez na escória do ser humano, escória essa que é tendência intrínseca a espécie. Será que o casal também saberia aproveitar sua chance? Na sequência final um vazio e uma sensação iminente de uma história não terminada. Porque na verdade, todo mundo sabe, que se Frank Capra tivesse filmado os dias posteriores de George Bailey, veríamos o personagem vivido por James Stewart caminhando em direção a latrina novamente.

4/5

Ficha Técnica: Gangues do Gueto (‘R Xmas)  -  França/EUA, 2001. Dir: Abel Ferrara. Elenco: Drea de Matteo, Lillo Brancato, Lisa Valens, Ice-T.

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