- por Bernardo Brum 

J. Edgar é, essencialmente, um filme sombrio. A mis-én-scene, com sua fotografia de baixa luz, que nunca mostra o rosto dos personagens ou os ambientes onde estão por inteiro, e a paleta de cores da direção de arte, com suas roupas e cenários de tons igualmente escuros, mergulha o espectador dentro da penumbra que era a vida particular do influente John Edgar Hoover, o homem que fez do FBI a poderosa organização federal que é hoje em dia.

Os que esperavam um filme por assim dizer mais político certamente saíram frustrados, já que o que encontraram pela frente foi um grande estudo de personagem. Apaixonado por desajustados sociais – os garotos de Sobre Meninos e Lobos, Nelson Mandela e François Pienaar em Invictus, a mãe que luta contra o sistema corrupto em A Troca os matadores velhos de Os Imperdoáveis – Clint abre um precedente para falar da complexa personalidade de Hoover, o homem que sempre foi a situação em seu país: de bandidos e comunistas no início do século a líderes de movimento e negros ativistas nos anos sessenta, este homem profundamente obstinado acreditou no ideal americano como poucos, em uma luta ideológica perpétua que durou quase cinco décadas, até o fim da sua vida.

Sua herança de cinemas como os de Fuller e Ray, determinados a promover descortinamentos sociais em suas narrativas encontra eco no roteiro de Dustin Lance Black, vencedor do Oscar pelo roteiro de Milk. Se Milk em si era bastante fiel  na recriação da atmosfera de contestação e da luta pelos direitos humanos dos homossexuais da Rua Castro, Dustin construiu seu roteiro acerca da suposta homossexualidade de Hoover, que segundo constam os rumores, nutria uma paixão e era correspondido pelo seu braço-direito Clyde Tolson, diretor associado do FBI.

A estrutura cronológica desmontada encontra-se em forma de memória, onde as lembranças de Hoover ditadas a um empregado chocam-se com as recordações desagradáveis da sua vida pessoal. Apesar de não ser “fechada” como espera-se de um filme de narrativa mais clássica como é característica do cinema de Eastwood, realiza um trabalho de investigação que, em pouco mais de duas horas, tem a missão de cobrir décadas de história.

O terceiro ato do filme – quando as cenas de um Hoover mais velho começam a predominar – cresce em intensidade dramática. Após experimentarmos a construção sintomática de Hoover explicada didaticamente ao longo do filme. como sua repulsa ao toque, sua indisposição de relacionar-se socialmente e seu complexo edipiano com uma mãe superprotetora e conservadora que o criou para ser grande e “duro”, finalmente começa (após cenas como a primeira briga provocada por ciúmes entre Edgar e Clyde ou quando, em luto, o protagonista traveste-se com as roupas da mãe) a ser desmontado e um ser humano extremamente frágil vir à tona.

O filme não se apressa em julgar e tampouco foca nas relações de poder, que aqui exercem um papel secundário. As duras sombras demarcadas conferem pouco a pouco um clima de pesadelo vivo e incontornável. O farsesco passado ditado por Hoover é lentamente desmentido à medida que o implacável diretor do FBI caminha a passos largos para sua morte, ainda que sua determinação nunca tenha arrefecido. Nesse ponto, o autoritário e paranóico J. Edgar criado por Clint e Dustin não deixa de ser uma figura admirável, visto o conflito interno profundamente Junguiano que enfrentou durante a vida que é criada no filme.

Afinal de contas, a relação entre o lado pessoal de Hoover e o jeito que se projetava para o resto do mundo acaba lembrando fortemente os conceitos de persona e sombra. Hoover para os empregados e para o mundo, Edgar para os poucos íntimos. Um líder nato e enérgico às claras, um homenzinho medíocre no interiores lúgubres e depressivos. Representação contra a natureza incontornável, conceitos que afligem tanto Clint – como pode-se ver em vários dos seus personagens e tramas, seja a dona de casa apaixonadamente infiel em As Pontes de Madison ou no falso heroísmo de A Conquista de Honra – encarnados em um único personagem. J. Edgar, nesse início de década, é um pleno exercício de narrativa character driven; episódico, apesar da progressão dramática e psicológica, criando várias camadas complexas de ambiguidade sobre um único homem.

Algoz de tantos e vítima das próprias escolhas, incapaz de aceitar e contornar defeitos e aceitar condições inerentes a si, destinado unicamente a manter seu personagem público impenetrável, J. Edgar Hoover tem como tantos outros uma despedida medíocre desse mundo. O homem que queria combater o crime ao caçar John Dillinger e que acabou passando seus últimos dias covardemente chantageando Martin Luther King despede-se trabalhando e fazendo esforço até o último minuto, até cair duro no chão. Quase ninguém para assistir, muitos para lembrar. Ao contrário do que tantos queriam, J. Edgar, o filme, não lança luz sobre o mistério dessa figura pública tao marcante – apenas cria mais sombras de dúvida. Um intenso estudo de personagem e um mergulho profundo em uma natureza que nos é alheia. Um descortinamento que, no final das contas, nada julga e nada responde; como tudo no ambíguo cinema de Eastwood, veio para confundir.

4/5

Ficha técnica: J. Edgar (idem) – EUA, 2011. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Leonardo DiCaprio, Naomi Watts, Judi Dench, Armie Hammer, Josh Lucas, Jeffrey Donovan, Denis O’ Hare, Lea Thompson, Gunner Wright.

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- por Michael Barbosa

Existe algo de bastante particular em Francesca e Robert Kincaid (Meryl Streep e Clint Eastwood), personagens centrais de 

As Pontes de Madison, eles são os menos americanos entre os grandes personagens dos filmes de Clint, não pelo simples e óbvio fato dela ser italiana e ele um cidadão do mundo, mas sim pela inquietação e incômodo que Francesca evidencia na posição de dona de casa tradicional do interior do meio-oeste americano e Robert pelo completo desprezo que demonstra por toda a estrutura familiar e social do americano tradicional, talvez seja possível ver um quê de tendencioso e premeditado quando Clint dá a uma personagem não-americana o papel de mulher adúltera, mas prefiro enxergar de outra forma, quem sabe seja outro o caminho pretendido, sobre uma nova perspectiva Francesca e Robert só tinham uma vontade de aproveitar a vida maior que as pessoas ao seu redor e estavam tentando se desprender do comodismo habitual.

A estrutura narrativa escolhida por Clint para contar a história de dois irmãos descobrindo o passando da mãe – já morta – através de diários deixados por ela é interessante, faz com que o filme transite entre passado e presente de maneira incomum dentro do cinema do diretor, mas não ali que mora o grande mérito. Por vezes essa opção falha em mostrar alguma valia, e as sequências dos irmãos parecem apenas “quebrar”  a história principal. O que faz desse daqui um grande filme é ver a inacreditável sensibilidade de Clint, ícone de westerns e uma série de “filmes de macho”, para filmar uma das mais comoventes histórias de amor já contadas.

Tudo começa quando um fotógrafo pede informação para uma dona de casa sozinha, ela é mais solicita que o usual, culpa do tédio (ou é só fogo mesmo?) e papo vai, papo vem eles descobrem um milhão de afinidades e riem muito juntos, mas ela está insegura com aquilo tudo, com o senso de certo e errado martelando a mente. No começo há o receio e a incerteza, mas o logo o querer é maior, ele precisava de algo pra se apegar depois de tanto tempo vagando por aí e um casamento mal-sucedido, ela só estava realmente de saco cheio com os rumos da vida e se sentia presa a algo demasiadamente ordinário. Tudo acontece bastante rápido e talvez seja difícil de encarar como crível uma paixão de uma vida que nasce e amadurece em coisa de dois dias, mas é assim que é o romance interpretado por esses dois ícones que são Eastwood e Streep (e o simples fato de vê-los contracenando já faz de As Pontes de Madison antológico para o cinema americano), fulminante.

Talvez o filme seja por vezes piegas. Pode ser que esse seja para Clint o embrião do que muitos viriam a chamar de dramalhão em filmes como Menina de Ouro e A Troca. Pouco importa, porque aqui o diretor transforma cada despedida em uma cena com uma carga dramática e emocional invejável, é por vezes comovente e em outras aflitivo, porém sempre com a mão de um mestre evidente. E se alguém em 1995 ainda duvidava de Clint Eastwood como diretor, mesmo após o western final em Os Imperdoáveis, eis As Pontes de Madison.

4/5

Ficha Técnica: As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) – EUA, 1995. Dir: Clint Eastwood. Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Phyllis Lyons, Michelle Benes, Debra Monk

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