- por Bernardo Brum

Os Viciosos não é um filme fácil de se envolver com. Não é nem por ser um dos filmes mais assumidamente e escancaradamente vanguardistas de Ferrara onde toda e qualquer facilidade e artifício do cinema narrativo clássico é deixada de lado em prol da verdadeira viagem de estímulos sensoriais filmadas em um preto e branco depressivo, quanto pelo assunto que aborda, de forma ainda mais explícita que O Rei de Nova York ou Vício Frenético: a maldade inerente do ser humano e sua busca eterna pelo êxtase, seja espiritual, sexual, afetivo. Apesar de ambos estarem entrelaçados, não são responsáves entre si, e um não tem a culpa de o outro existir na dualidade humana. A busca pelo êxtase é o instinto, o princípio do prazer; a maldade é o choque que nasce entre esse princípio e o da realidade.

A posição dos personagens do Ferrara, e a do próprio espectador, que o diretor sempre iguala em nível de consciência e conhecimento dos fatos com os protagonistas, é terrível: estamos em um universo de escolhas, como bem já escreveram certos autores e pensadores citados nos filmes – Jean-Paul Sartre e William Burroughs entre eles – mas a nossa vontade de potência confrontada com a brutal realidade nos condiciona a retaliação, sempre. Violência se paga com violência, pecados se pagam nas ruas, condenscendência se paga com indiferença. Ferrara diz pela voz de Kathleen Conklin: não é isso que é curioso. É a simples falta de noção do peso das nossas escolhas. A não consciência da idéia de “o inferno são os outros”. Não há perdão para cada erro que cometemos e se nós não lembrarmos do passado, nós vamos repetir um por um.

Um dos maiores triunfos é repetido por aí afora dentre os que conhecem o filme: o vampirismo utilizado como metáfora para o vício. Não apenas em drogas, uma vez que nós somos todos viciados, nós somos todos vampiros e nós somos todos nulidades. “Nós não somos maus por causa do mal que fizemos, mas fazemos o mal porque somos maus”, frase dita a certo ponto no filme, sintetiza tantas sequências quanto possíveis: seja a jovem que olha assustada no espelho a marca da mordida que recebeu de Kathleen (em um exercício genial de campo e contracampo no mesmo plano, a loira inocente descobre a parte podre da essência humana e descobre-se como a morena viciada), seja em uma festa intelectual depredada por um bando de predadores marginais. No meio deles, Kathleen. Entre a ilusão e anti-ilusão (dados os enquadramentos pouco usuais e a montagem frenética e imprevisível), clássico e contemporâneo, Ferrara, pisando ao mesmo tempo no realismo cru e na estilização pesada das megalópoles, que firmou-se, filme a filme, como o grande questionador e pensador do cinema americano e aqui, faz um dos filmes síntese de toda a carreira.

Toda a carga mórbida e negativa de Ferrara em momento algum é inocente, fanática ou infundada. Ao contrário; são obras que nasceram de profundas pesquisas, leituras, considerações e que escorrem na tela fluindo de forma penetrante e incisiva. A imagem no cinema nasce à base de luz; só diante da luz que pode-se revelar a verdadeira natureza de algo; nada revela-se por si (e se é revelado, é uma nulidade), mas devido a um encontro. E sob as luzes do cinema, conhecemos a maldade, o êxtase, o vício. A contemplação e a contestação da grande pilha de ossos que vem se acumulando ano após ano e que os sobreviventes mordem e chupam até a medula. Plano do agressor, contraplano da vítima. Logo após, a escolha pelo vício. É nas escolhas que está o único alívio; no final, a luz do cinema se apaga; voltamos à sombra. Mas o exercício fílmico é a consciência do encontro. Do questionamento de Ferrara com os valores do espectador, e o contrário logo então.

Não há êxtase em Os Viciosos. Não há o êxtase das sombras expressionistas de Frak White em O Rei de Nova York, ou o fervor religioso do abandonado tenente drogado em Vício Frenético, ou a consciência influindo na narrativa como em O Enigma do Poder. Há o mal; há a busca; o vício; e a decisão. Todos influindo no ritmo pesado e truncado. Peças fragmentadas do êxtase? Ou quatro instâncias de maldade?

Talvez desse confronto nasça o cinema: o êxtase da consciência, a consciência do errado e de sua natureza; a oportunidade da busca.

5/5

Ficha técnica: Os Viciosos (The Addiction) – EUA, 1995. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: Lili Taylor, Christopher Walken, Annabella Sciorra, Edie Falco, Michael Imperioli

- por Bernardo Brum

Scorsese sem camisinha. Polanski com abstinência de crack. David Lynch filmando O Massacre da Serra Elétrica. É, já chamaram Abel Ferrara de muita coisa. Só que desconfio que já chamaram o cara de tudo, menos de Abel Ferrara, um dos diretores mais impactantes, chocantes e exóticos já vistos. Não falo isso nem pelo fato do cara ter uma gengiva protuberante. É que obra-prima atrás de obra-prima, Ferrara descarregou para o mundo uma avalanche de psicoses, neuroses e obsessões dos mais variados tipos. E Vício Frenético sempre cai como uma luva para explicar tudo isso.

Essa avalanche catártica dos complicados paradoxos da existência compõe o mais interessante desse cineasta cujas obras, em questões de enredo podem ser simplificadas com apenas uma frase; um artista pobre e frustrado descarrega sua fúria em desconhecidos (O Assassino da Furadeira), mulher muda é estuprada duas vezes e torna-se uma homicida paranóica (Sedução e Vingança), família de mafiosos querendo vingar o caçula fuzilado (Os Chefões), oficial de polícia viciado em drogas investiga o estupro de uma freira (o filme em questão). Por aí vai. Simples, direto, no ponto, visceral, muito visceral. A crueza de seus filmes é sempre assim – invarivelmente estrangulante, combinada com um estilo de direção praticamente sem precedentes: livre, coeso e fluido, mas tudo isso não passa de um pretexto para pular dentro de um universo de sentimentos nem um pouco bonitos.

É sempre assim, crime, religião, sexo, raiva, afeto, psicopatia, dependência, loucura – universos assustadoramente próximos para Ferrara.

Em Vício Frenético, não tem meio termo. A câmera cola em Harvey Keitel e não desgruda nunca, temos que ver o tal oficial de polícia transviado se picando na veia, aspirando nariz adentro, tragando aquelas porcarias que ninguém ao certo sabe a composição química, fazendo apostas milionárias, acordando em apartamentos estranhos, tendo ataques neuróticos na hora do rush, rindo de ameaças de morte, abusando de adolescentes, rastejando, ganindo e transformando o rosto em uma máscara de agonia em estado bruto. Há cenas de pouca aplicação lógica na fluência da história, mas o louco Ferrara sempre foi assim. É o delírio de um vício que não consegue de jeito nenhum entender como o mundo é árido e seco, como ele é opaco por dentro, como a redenção parece tão longe que rasgamos obras-primas, fugimos de símbolos dito positivos e mandamos Jesus Cristo para aquele lugar. A força magnética do cineasta é sinistra, bizarra, é pessimismo cozendo a fé, a redenção, a santidade em um caldeirão esquizóide em fogo alto. Mais um documento em película viva da teoria de Milan Kundera que entre a escatologia e a graça divina há apenas um fino véu de seda como aquele que se rompe quando o filho de Stálin se jogou em cercas elétricas por se recusar a limpar banheiros nazistas (quer momento mais Ferrara? Pois é, Kundera descreve isso em A Insustentável Leveza do Ser), como aquele que se rompe quando Keitel dobra de joelhos e gane feito um cão sarnento dentro de uma igreja, levando todos para o mesmo buraco, ele e a força superior. Os dois tem cérebros e intestinos, mas por mais que a racionalidade tenha sido tão erigida nesse mundo velho de guerra, cagam e andam um para o outro.

Nem o genial Keitel e seu genial diretor fetiche poupam esforços para fazer com que essa história seja fácil de ser contada. Como em O Assassino da Furadeira, estão elevando o filme no volume máximo, embarcam sem medo na psicose nua e crua. Mergulhe nas cenas longas que afinal de contas não vão influenciar tanto assim no desenrolar da história, porque a história, meu velho, é assim mesma, fragmentada, alucinada, entre o delírio e a rebordosa, entre o buraco e a redenção, tudo é carne, é sangue, é cruel. Em se tratando de doença mental, Ferrara sempre tratou a mesma com a mesma sutileza de um elefante em uma loja de cristais, e com uma intensidade rara de ser vista nessa arte centenária que é o cinema. É tipo Saturno devorando os próprios filhos em um quadro de Goya – é totalmente perturbador, com aquele olhar arregalado e insano, mas é um espelho, do artista e do receptor, de todas as neuroses da vida mundana, medíocre e frustrada. Se Abel é gênio ou é louco, nós vamos morrer sem saber.

5/5

Ficha técnica: Vício Frenético (Bad Lieutenant) – 1992, EUA. Direção: Abel Ferrara. Elenco: Harvey Keitel, Victor Argo, Paul Calderon.

driller killer

- por Bernardo Brum

De uma convergência surtada e esquizofrênica entre o movimento punk, a contracultura cinematográfica setentista, o nascente subgênero slasher e as aspirações Polanski-Lynchianas de um então estudante de cinema que concluía o seu curso, nasceu O Asssassino da Furadeira, primeiro longa-metragem de Abel Ferrara no circuito cinematográfico de fato (o anterior era um pornô softcore, Nine Lives of a Wet Pussycat, que não chegou a lugar nenhum).

Se Scorsese, que havia descoberto as ruas de New York para poder tecer algumas toneladas de crítica social, andava num entrave e tudo que conseguia produzir era coisas como o documentário The Last Waltz e o musical-romântico New York New York, coube então a um jovem e revoltado Ferrara continuar ao que momentaneamente Martin parecia ter esquecido no momento – o estilo urbano, agressivo e pirado de obras como Caminhos Perigosos e Taxi Driver.

Com um enredo tão simples quanto qualquer filme de terror barato que foi lançado aos montes nos anos setenta – um pintor, morador de um buraco qualquer, enlouquecido por ser esnobado por suas duas namoradas, por uma banda punk que se hospeda no prédio vizinho e toca o tempo inteiro, e por não conseguir pintar um quadro decente que pagasse o aluguel, compra um “cinto-tomada” portátil e uma furadeira, passando a matar todas as pessoas que encontra, começando por mendigos e lentamente evoluindo para pessoas mais próximas – Abel fez um filme que provavelmente iria decepcionar os fãs de Wes Craven e Tobe Hooper, já que o foco é mais no delírio e na perturbação do que, necessariamente, na violência.

Pois é, apesar de mergulhar nos mares vigorosos, exagerados e histéricos do cinema exploitation, Ferrara mergulha com o próprio refinamento revestindo-o como um escafandro. Assim, entre uma morte bizarra e outra (que, a bem da verdade acabam por ser a parte menos interessante do filme – afinal, não existem cinco formas diferentes de matar alguém com uma furadeira. Sei lá, acho que nem duas.), temos também que assistir estripulias e loucuras experimentais do diretor que logo abandona qualquer narrativa lógica e lúcida para se esbaldar em punks chapados, mendigos nojentos, subjetivas documentais, panorâmicas tortas, iluminação saturada e montagem picotada. Longe de um Roger Corman para financiar suas primeiras viagens, quem apadrinhou Ferrara, muito provavelmente, foram algumas substâncias químicas ilegais, a iconoclastia efervescente de qualquer pessoa ligada à arte na cidade até então, e a explosão revoltada do punk novaiorquino: daí se explica a vontade de se distanciar de qualquer subversão arcaica – se até hoje cineastas contemporâneos a Ferrara querem subverter usando músicas dos Rolling Stones, ou de bandas glam como o T. Rex, o que veríamos é que, começando no punk underground, o diretor logo ia adentrar o universo do hip hop – novo reduto para ele aprontar mais meia dúzia de pirações brilhantes.

Sendo aqui cômico, violento, incoerente, incômodo, fragmentado, Abel Ferrara fez o famoso “filme para iniciados”. Dificilmente alguém que começou a assistir filmes há pouco tempo irá se acostumar os com closes obsessivos de objetos aparentemente sem importância, o roteiro cíclico de pessoas se matando intercalado com um hilário e pretenso vanguardismo de filmar uma banda punk fazendo careta e tocando músicas irritantes por dezenas de minutos a fio, tampouco irá suportas as brincadeirinhas de Ferrara (por exemplo, a genial sequência do “sonho psicótico regado a musiquinha de ninar”).  Pois é, se segundo John Lennon, o sonho tinha acabado, não me perguntem o que havia começado aqui. Uma verdadeira usina de força do cinema na pele de um verdadeiro auteur, um pesadelo promovido por abstinência de crack… Vai saber.

3/5

Ficha técnica: O Assassino da Furadeira (The Driller Killer) – 1979, EUA. Dir: Abel Ferrara. Elenco:  Abel Ferrara, Carolyn Mars, Baiby Day, Harry Schultz, Alan Wynroth, Maria Helhoski, Richard Howoroth

king of new york 3

- por Bernardo Brum

Abel Ferrara, filme após filme, fez do céu e do inferno forças que ditas opositoras, são assustadoramente próximas, conectadas e dependentes uma da outra. Do dilema do personagem de Harvey Keitel em Vício Frenético ao clímax com a serial killer surda-muda vestida de freira em Sedução e Vingança, entre tantos outros momentos de sua filmografia, Ferrara costurou um mundo onde a sociedade, para continuar a existir, é progressivamente contaminada por uma pestilência inevitável, uma corrupção irresístivel e uma tendência para a destruição impressionante.

Em O Rei de Nova York, a primeira de suas grandes obras-primas que iria realizar ao longo dos anos noventa, ele conta a história de Frank White, um chefão da cocaína de Nova York que, após anos encarcerado, se vê em liberdade de novo para mais uma vez reconstruir seu império, ajudado por sua gangue de traficantes negros.  Ao mesmo tempo que negocia e/ou combate outras gangues étnicas, também vê em seu encalço um grupo de policiais que desejam desesperadamente prender Frank e seus cúmplices.

Só pelo início, Ferrara já denuncia o que vem pela frente: cercado tanto da escória social quanto da alta cúpula da sociedade, White parece ser ideal para a profissão que escolheu: ao mesmo tempo, é refinado, implacável, charmoso e brutal – o que faz com que as pesoas nos postos mais altos da sociedade facilmente se sujeitem a ele, obriga outras gangues a se ajoelharem com sua mão de ferro, recruta bandidos não filiados, desperta desejo nas mulheres e a todo momento faz a polícia se sentir desafiada.

Toda a aura de mito urbano construído em cima de Frank – fazendo dele um nome muito mais citado do que visto – é construído de forma absolutamente genial pelo diretor, desde a dança que reintegra o gângster a sua gangue, o que lembra em muito uma dança tribal, ainda que estejam cantando hip hop até os travellings de luz, sombras, corredores e vidros que fazem o personagem de Walken, com seu penteado revolto, palidez e figura imponente parecer uma espécie de Nosferatu reconfigurado, que faz de Nova York sua Transilvânia, mas que ao contrário da figura que lhe deu origem, não é uma criatura amaldiçoada por tudo e por todos, ainda que seja o pária. O mais poderoso dos párias, mas o desajustado em todos os lugares que frequenta. Inclusive, o clássico de Murnau é citado explicitamente onde uma tentativa de negociação ocorre num cinema particular onde uma gangue asiática assiste filmes do expressionista alemão.

A estilização feita da violência é outro ponto impressionante a se destacar. De cada momento violento, o diretor faz disto um ponto chave de mudança do roteiro e arranca uma imagem impressionante atrás da outra. O tratamento que Ferrara dá a cada uma delas é preciso demais – desde a execução de um informante delator, que tem uns plongées e contra-plongées aterrorizantes até sua sequência mais famosa, onde em uma boate barra pesada toda iluminada de azul começam a surgir faíscas brancas que provocam um esporro sonoro tremendo. Dessa imensa tela azul que não se deixa enxergar mais nada além dos contornos, Ferrara vai rompendo com luzes que prenunciam morte, destruição e degradação – a paz pervertida do azul é corrompida pela luz das balas sendo disparadas, o interior da boate é rompido pelas infinitas ruas da Grande Maçã, o mormaço é substituído pela perseguição, a chuva rompe, começam as batidas e culminam nas mortes do mais leal dos traficantes e do mais dedicado policial.

Nessa cena, uma das maiores sínteses do cinema de Abel, podemos encontrar pela sua estética de raro domínio de compreensão e distorção de espaço o mesmo que vamos ouvir quando Walken invade o quarto de um dos únicos cabeças da operação que saiu vivo. “Você acha que me matando em algum clube noturno vai impedir o que leva alguém a se drogar?”, pergunta ele. “Eu não sou seu problema. Eu sou apenas um homem de negócios”. Após esse último discurso, vai embora. Numa perseguição de clima mais pesado ainda, o último momento de filme leva todos para o buraco. Policiais, civis e bandidos caem. Até o rei de Nova York, que faz o trânsito parar, o saudando sem saber. Sem marcha fúnebre, sangrando as tripas fora, sem o tapete vermelho, sem mulher, Frank White dá seu último suspiro encerrando uma das sequências mais sufocantes do cinema.

Objetivo, estilizado, metafórico e realista, Abel faz tudo chover na cara do espectador ao mesmo tempo, uma tempestade de paradoxos a nível de cartarse. Sem concessões ou freios, foi erguido um monumento cinematográfico de poderio inenarrável – uma das mais impressionantes orgias de imagem, luz, sombra, som, música e ruído da história.

5/5

O Rei de Nova York (King of New York) – 1990, Estados Unidos.  Dir.: Abel Ferrara. Elenco: Christopher Walken, David Caruso, Wesley Snipes, Steve Buscemi, Laurence Fishburne, Vanessa Angel, Erica Gimpel

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