- por Bernardo Brum

Visitor Q é muito mais que uma versão japonesa de Teorema, de Pier Paolo Pasolini. Miike transformou um filme contemplativo e alegórico em um filme bem a seu gosto: um circo de horrores escroto e demente, que visa destruir a família japonesa construída por séculos para então recolocá-la em um estágio primal e animalesco – uma volta às origens do homem, que para o diretor, não parece passar de um pervertido reprimido.

Feito no mesmo ano de Ichi The Killer (além de mais cinco filmes além destes, como é típico do ritmo frenético e alucinado do diretor), Visitor Q ao contrário do seu parente mais famoso não utiliza a estilização extrema da violência, mas sim o estilo direct-to-video, copiando produções caseiras (explorando a possibilidade de criar sob menores orçamentos com as facilidades da tecnologia de captura digital),  dando assim uma atmosfera realista a um filme que, narrativa e dramaturgicamente, logo se envolve pelo surrealismo e pela comédia de humor negro.

A família sob a ótica de Miike é um clube de degenerados no mais alto pico de  angústia, com um pai incestuoso obsessivo em capturar imagens sobre a brutalidade da juventude japonesa, a mãe submissa, que apanha do filho e é viciada em heroína, o filho que desconta as agressões que sofre na escola na família, e a filha que se prostitui e logo no início persuade o próprio pai a fazer sexo com ela, apenas para humilhá-lo depois. Todos eles serão visitados em algum momento pelo caótico visitante que irá mudar suas vidas. Um personagem ambíguo e calado e puramente caótico, que não hesita tanto em bater nos protagonistas com pedras na cabeça quanto ajudá-los ou seduzi-los.

Essas relações pretensamente estáveis que são visitadas pelo caos, um tema tão frequente no cinema, e exploradas tão explicitamente nos filmes mais controversos, são implacavelmente destruídas em Visitor Q. Ao contrário de Audition e mais próximo de Ichi, Q é um filme onde seus personagens desde o início já apresentam a mais variada das parafilias – e apenas o caos pode devolvê-los ao estado primal, onde encontrariam a paz interior. A perversão do personagem, nascida das suas próprias neuroses – o pai envelhecendo e perdendo a potência sexual, a mãe e a filha subjugadas por uma cultura misógina e sexista, o filho provocador e vítima da violência que o cerca, jamais sabendo como reagir ou adaptar-se.

A chegada do visitante, então, faz os personagens atingirem o pico da negação de si mesmos enquanto indivíduos, liberando todas as suas neuroses. É aí que Visitor Q, em todo seu humor escroto, dá a volta e torna-se uma obra libertadora. Momentos antes do final, a bizarria atingirá seu pico grotesco e escatológico – e numa chuva de leite materno, se livrará de todas as angústias.

Se no Teorema de Pasolini regredir ao estado primal era como sentir-se nu e desesperado no deserto, o animalesco para Miike talvez seja a única chance de redenção para o ser humano. Pai e filhos nadam no leite e sugam nos seios de uma mãe curada de cicatrizes e vícios que a sociedade lhes impunham. Desaparecem todas as feridas. Como se voltassem ao estágio do feto, onde a repressão social lhes era desconhecida, a fêmea volta a assumir seu papel primordial, alimentando uma família de animais movidos por nada além da pulsão de sexo.

Após a avalanche de piadas escrotas e nojentas, da sequência de absurdos cotidianos revelados em toda a sua monstruosidade, Visitor Q  termina com aquele que é um dos finais mais simbolicamente definidos de sua filmografia – e quiçá, feliz do seu modo anacrônico. Para Miike, a felicidade não é aprender a se adequar, é destruir qualquer forma de adequação e qualquer pressuposto de normalidade em ordem de regressar à uma verdade liberdade. Como diria o próprio Pasolini no qual se baseou, “não há nada de natural na natureza”. A natureza é livre, em matéria de sexualidade, de desejo, de afeto, de violência e caos – tudo o que o visitante representa para aquelas pessoas e mais além, trazendo uma nova concepção de liberdade que nenhum neurótico entenderia.

Com esse conceito um tanto controverso, o diretor conhecido por sua avalanche de sangue, sexo, escatologia e humor estranho fez uma de suas obras que melhor representam o espírito único do seu cinema feito tão na base de suor, gozo e grito. Pulsão sobre pulsão sobre pulsão: uma intensidade diegética que poucos igualam e poucos acompanham. Miike é o grito primal do cinema – e sem vergonha nenhuma de estourar os tímpanos incomodados.

4/5

Ficha técnica: Visitor Q (Bizita Q) – Japão, 2001. Dir.: Takashi Miike. Elenco: Kenichi Endo, Shungiku Uchida, Kazushi Watanabe, Shôko Nakahara,Fujiko, Jun Mutô.

- por Fábio Visnadi

Quando se fala em Abel Ferrara as primeiras coisas que vêm a mente são os conflitos quase que barrocos do diretor nova-iorquino. Nessa colisão entre o humano e o divino, entre o carpe diem e os cuidados com a vida após a morte, somados à fragilidade do homem pós-moderno e a sua responsabilidade de resolver tudo, o cineasta nos brindou com obras que, mesmo não tão escancaradas, demonstravam esse impasse que sempre o atormentou.

Em “O Rei de Nova York”, ele brincava sutilmente com um jogo de luz e sombras, ao melhor modo barroco, tratando de um sujeito que recém-saído da prisão buscava sua redenção divina de modo humano. Em “Vício Frenético” ele aliava os vícios e obsessões humanas do policial vivido por Harvey Keitel a uma investigação feita de modos não ortodoxos sobre o estupro de uma freira, buscando desse modo, mais uma vez, sua salvação. Já em “Gangues do Gueto”, essa dualidade que vinha sutilmente sendo trabalhada ao longo dos anos, acaba sendo escancarada numa espécie de “A Felicidade Não Se Compra” cru e visceral.

Assim como no conto de Capra, os protagonistas vivenciam a decadência,  a frustração de não ter feito a vida tomar o rumo que queriam. Mas enquanto o primeiro apresentava uma saída no melhor estilo american way of life de ser, positiva e esperançosa, no filme de Abel o mundo é podre e cruel, e a redenção não vem em forma de um anjo, e sim disfarçada de um policial corrupto.

Ao observar o casal principal, o qual não são concedidos nomes, apenas referidos nos créditos como “O marido” e “A esposa”, pode-se perceber que o caminho que os levou até o estado de traficantes não foi por escolha, nem pela busca de uma vida mais fácil, foi apenas porque o mundo os empurrou pra esse esgoto mental. Não são o estereótipo de traficantes, são seres humanos comuns. Buscam, apesar dos caminhos que tomaram, cuidar dos laços afetivos, educar a filha normalmente, suprir os desejos da criança, enfim, serem bons pais. No entanto, o mundo não lhes deu chances.

Não são aprofundados, o contexto está nas entrelinhas. Recheando seu ‘conto de natal’ com cortes crus e utilizando o rap como trilha sonora, Abel Ferrara insere o espectador num mundo onde não há tempo ou espaço pra se desenvolver. O tempo é curto. Após ter seu marido sequestrado pouco antes do Natal, ‘a esposa’ tem que juntar dinheiro de todo canto para libertá-lo.

A escolha do Natal não foi aleatória. Ferrara usa a comemoração cristã mais importante, época na qual milagres acontecem a torto e direito nos filmes e todo mundo recebe uma segunda chance, para representar a dualidade entre o ser humano passional e a sua redenção mais uma vez. Ao conseguir o dinheiro pedido pelo sequestrador, este faz um pedido: que o casal saia do mundo do crime. Pode parecer simples, mas desse modo Abel Ferrara mais uma vez brinca com esse jogo barroco, em que a segunda chance vem das mãos de um sequestrador.

Mais tarde, descobre-se que esse sequestrador era na verdade um policial corrupto, que talvez tenha tido sua segunda chance mas tenha acabado mais uma vez na escória do ser humano, escória essa que é tendência intrínseca a espécie. Será que o casal também saberia aproveitar sua chance? Na sequência final um vazio e uma sensação iminente de uma história não terminada. Porque na verdade, todo mundo sabe, que se Frank Capra tivesse filmado os dias posteriores de George Bailey, veríamos o personagem vivido por James Stewart caminhando em direção a latrina novamente.

4/5

Ficha Técnica: Gangues do Gueto (‘R Xmas)  -  França/EUA, 2001. Dir: Abel Ferrara. Elenco: Drea de Matteo, Lillo Brancato, Lisa Valens, Ice-T.

dark star 3

- por Bernardo Brum

Uma nave cruza o espaço atrás de planetas considerados instáveis, ou seja, que podem sair de suas órbitas sem aviso e causarem um grande estrago. Os astronautas à bordo viajam há anos dentro da nave, a ponto de esquecerem os próprios primeiros nomes, já que só chamam uns aos outros pelo sobrenome. Agem quase mecanicamente operando a nave, como se tivessem sido absorvidos pela máquina. E por aí vai… Seria um continuação de 2001: Uma Odisséia no Espaço? Ledo engano. Na verdade, é o primeiro longa-metragem de John Carpenter, Dark Star.

Projeto transformado em longa em parceria com o roteirista (e também ator no filme) Dan O’ Bannon, Dark Star é uma comédia hippie ácida e irônica, repleta de brincadeiras, piadas e ironias por cada milímetro da película. Carpenter pega os ambientes estéreis dos filmes de Kubrick, junta com maconheiros low rider estilo Cheech e Chong e tira daí uma comédia ainda irregular em matéria de ritmo, mas com piadas tão inspiradas que ajudam a manter o interesse. O próprio cartaz do filme já dava uma prévia do mesmo, chamando o filme de “the spaced out oddissey” (expressão americana que, obviamente, indica um estado de consciência induzido pelo cigarro que passarinho não fuma).

Cenas envolvendo um alien muito picaretamente construído pela equipe técnica (na verdade, uma daquelas bolonas de praia pintada com bolinhas e com pés grudados em sua parte inferior) que acaba por deixar o astronauta feito por O’ Bannon preso em um elevador que toca o Barbeiro de Sevilha na altura máxima, o vídeo-diário que censura automaticamente quaisquer expressões sujas utilizadas pelos astronautas, uma discussão existencialista com uma bomba filósofa e um clímax totalmente absurdo com direito a surfe no espaço já se tornaram eternas para qualquer um que tenha assistido o primeiro dos clássicos cult do diretor. Fora que mostra aqui também uma de suas primeiras composições para seus filmes: a excelente e bem humorada canção country Benson, Arizona, que tem um refrão absolutamente pegajoso e viciante.

A crítica social de Carpenter, dessa vez, com um pouquinho das screwball comedies de Hawks (só que elevadas a um nível muito, muito politicamente incorreto) segue um pouco a idéia de Stanley Kubrick, dos homens esquecerem suas próprias identidades, agirem como máquinas, coisa e tal, mas ao mesmo tempo usa uma idéia também utilizada por Robert Altman no clássico MASH: frente a um horror imensurável (no caso de Dark Star, o vazio), o humor surge como a única alternativa frente ao “imperalismo-colonialismo” sob o qual os personagens foram impiedosamente subjugados.

Claro que, semiologia à parte, o filme tem muito mais a oferecer do que essa visão pessimista da humanidade: é visível a falta de orçamento, refletida em efeitos especiais muito ridículos e o clima fake, contornados com as boas idéias de O’ Bannon e um Carpenter que desde muito cedo já demonstrava talento por trás das câmeras, ao decupar suas câmeras estáticas com grande criatividade e boa compreensão de espaço. Recomendado para todos os hippies que ainda não desistiram da causa, doentes por Carpenter e os fanáticos por filmes de baixo orçamento. E os chatos de plantão que dirão que o filme é ruim por causa da carismática bola de praia, que vão discutir fenomenologia com bombas nucleares!

3/5

Dark Star – 1974, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Dan O’ Bannon, Brian Narelle, Cal Kuniholm, Dre Pahich

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