
- por Fábio Visnadi
“You can refute Hawks in the name of Ray (or vice versa), or admit them both, but to anyone who would reject them both I make so bold as to say this: Stop going to the cinema, don’t watch anymore films, for you will never know the meaning of inspiration, of a view-finder, of poetic intuition, a frame, a shot, an idea, a good film, the cinema. An insufferable pretension? No: a wonderful certainty.”
- François Truffaut
Por mais exagerado que o enunciado de Truffaut possa parecer, cabe nele o perdão do crítico-cineasta, uma vez que é possível enxergar nele a mesma matéria-prima que move o cinema de Ray, Hawks e também de Fuller, Ford, Hitchcock, Minnelli, Wilder e todo o pessoal da velha guarda de Hollywood: a paixão. Essa mesma paixão talvez que tenha motivado Truffaut, Godard e a nouvelle vague e também as críticas da Cahiers (muito mais passionais do que racionais e analíticas). É a decupagem romântica, é o bordão artesanal. No entanto, por mais que Ford e companhia também sejam apaixonados, é no cinema de Ray e Hawks que essa paixão está exacerbada de maneira mais contundente e gritante.
Ray e Hawks respiram paixão em cada fotograma de suas películas. No entanto, suas paixões são direcionadas de maneiras bem distintas. Enquanto Hawks é o diretor da virtude e do singelo, das relações humanas, do cinema à altura do homem; Ray é o diretor da marginalização, do controle desenfreado dessa paixão, do cinema à periferia do homem. Peguemos como exemplo Hatari! (1962), de Howard Hawks e Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray.
Primeiro às diferenças: Hatari! é o filme síntese de Howard Hawks. Reúne todos os elementos de sua obra e de suas diferentes fases em um filme de estrutura episódica e anedóctica. Liderados por John Wayne, o filme conta a história de um grupo de caçadores na savana africana que se reúne para armazenar animais e vendê-los para o zoológico. No entanto, apesar de uma narrativa bem convencional e sem grandes riscos devido ao momento industrial em que estava inserido, Hawks consegue realizar uma história sem começo, meio e fim definidos, onde cada sequência representa um pouco de seu cinema.
Estão aqui todos os seus elementos. O primeiro e mais comentado, porém menos debatido: o cinema à altura do homem. Esse cinema à altura do homem, essa câmera à altura da virtude humana reside no singelo de seus personagens. Mesmo em filmes como Scarface, A Vergonha da Nação (1932), encontramos personagens como seu secretário atrapalhado conferindo um tom humanístico à obra. Jacques Rivette já observava isso há mais de sessenta anos, mas pouco se diz sobre quando a obra de Hawks é subestimada e não analisada profundamente.
Em “Onde Começa o Inferno” (1959), Hawks realiza um western de interiores onde as fraquezas humanas (alcoolismo), são ajudadas pelas virtudes humanas (amizade, companheirismo, coragem), aliando humor ao drama/aventura. É interessante reparar na repetição do ator Walter Brennan em “Uma Aventura na Martinica” (1944), “Rio Vermelho” (1948) e “Onde Começa o Inferno”. Os personagens que o ator representa são como o secretário de Scarface e como Katherine Hepburn em “Levada da Breca” (1938). Eles existem para servir de apoio e trazer à comédia à homens reservados como Wayne, Bogart e Cary Grant, realizando um equilíbrio entre o sério e o cômico, produzindo o singelo.
É interessante notar que apesar de muitos diretores filmarem as virtudes humanas, poucos se dedicaram exclusivamente a isso. Os filmes de Hawks são meramente sobre isso. Não se extrai nuances ou complexidades acerca do que Bogart está pensando quando decide aceitar o plano-resgate dos revolucionários em Martinica ou o que Wayne está pensando quando está caçando rinocerontes na selva africana. Hawks se preocupa em filmar apenas o romantismo e a coragem que um momento desses exigem.
Alguns cineastas posteriores, como Steven Spielberg e Clint Eastwood (talvez o que mais tenha conseguido seguir os passos de Hawks) se empenharam em reconstruir esse papel. No entanto, o primeiro falhou justamente por não saber realizar o equilíbrio do singelo. Não à toa, seu filme mais bem-sucedido (“Os Caçadores da Arca Perdida”) é o seu filme mais hawksiano, enquanto obras como “A Lista de Schindler” procuram exaltar a virtude do homem, ao invés de torná-la comum como Hawks o faz em todos os seus filmes.
Voltando à Hatari!, nessa estrutura anedóctica e episódica, o diretor brinda ao espectador com sequências de tensão e comicidade em um curto espaço de tempo. O filme é um jogo de esquetes que representa todo esse básico do cinema de Hawks: o homem reservado que se entrega ao amor, dois rapazes brigando pela mesma garota mas que no final acabam perdendo para um terceiro. Tudo isso é filmado com a cumplicidade entre os personagens. No universo de Hawks, quando a maldade existe ela é contornada com a graça e a amizade.
Também em Hatari!, Hawks repete outra máxima de seu cinema: os interiores e exteriores. Em momentos de conflito físico, planos abertos. Toda vez que os homens de Wayne estão caçando animais na savana africana, Hawks utiliza planos abertos que deem espaço para que a tensão se estabeleça. Mais ou menos como Bogart em “Uma Aventura na Martinica”, no mar em plano aberto. Enquanto isso, os conflitos interiores se resolvem em planos e ambientes fechados: a cadeia de “Onde Começa o Inferno” ou os momentos pós-trabalho em Hatari!.
Ray vai na contramão de Hawks. Seu cinema é a paixão do homem marginalizado. Reside nos filmes de Ray o homem que foge à paixão. James Dean em “Juventude Transviada” (1955) ou Humphrey Bogart em “Silêncio da Noite” (1950) são homens que estão constantemente fugindo dos seus destinos, uma vez que a paixão neles reside em seu temperamento forte. É o contrário da virtude, aqui é a fraqueza.

“Johnny Guitar” (1954) conta a história de Vienna, personagem vivida por Joan Crawford, que ao construir seu saloon em um local estratégico por onde passaria uma ferrovia, passa a ser ameaçada pelos puritanos locais pelos mais diversos motivos apresentados, passando a necessitar da ajuda de seu ex-amante Johnny Logan, agora Johnny Guitar.
Johnny Guitar é mais um personagem fugindo de seu destino e da violência que rege a sua existência passional. Marginalizado pela sociedade, Johnny Guitar nos anos 50 seria tal como James Dean, um jovem esperto o bastante para sobreviver às malandragens da vida, porém reservado demais para remar conforme a maré. Resumindo: é um cara impossível de se adaptar ao seu tempo e ao seu redor.
Ray preferiu os marginalizados. Talvez por isso, “Johnny Guitar” seja notável por ser um western feminista onde tanto a protagonista quanto a antagonista sejam mulheres; “Juventude Transviada” seja o grito do adolescente subestimado e “No Silêncio da Noite” um filme basicamente sobre pré-julgamentos e preconceitos.
É o outro lado da moeda de Hawks. Muitas vezes os personagens terminam suas jornadas do ponto de onde começaram. Muitas vezes os acontecidos nos filmes de Ray só servem para que eles se marginalizem ainda mais. Para que essas paixões se tornem cada vez mais suprimidas no interior dos seres humanos, mas cada vez mais gritadas nos momentos ápices do filme, como Platão ou Dancin’ Kid.
Geralmente nos filmes de Ray os personagens também sofrem as injustiças e as pressões sociais, sendo acusados frequentemente de crimes e desordes das quais não cometeram.
É interessante notar também que Ray filma os pais classe-média de Dean, os policiais i
nquisidores de Bogart e a sociedade puritana perseguidora de Crawford da mesma maneira. Todos representando máxima: “o homem é o lobo do homem” e “o inferno são os outros”. Por isso talvez seus personagens funcionem melhor sozinhos e estejam constantemente se mudando de um lugar para o outro.
No entanto, em algum lugar no passado hollywoodiano, as paixões de Ray e Hawks se encontraram. Talvez não em suas temáticas ou no tratamento conferido à seus personagens, mas em seu senso de realização, em seus filmes impossíveis de serem realizados em outros meios que não o cinema, em suas histórias “popularescas” e diferentes entre si, mas que contém muito mais autoralidade e uma proposta bem definida e que entendem muito mais de seu tempo do que muito diretor atual metido à besta.
Por isso, correndo o risco do pedantismo, pode-se afirmar que o enunciado de Truffaut é coerente. Longe de afirmar o cinema em verdades dogmáticas, é difícil encontrar a paixão no espectador que não goste de Ray e Hawks. Não gostar da coragem e da comicidade em Hawks, vá lá. Não gostar do medo e da seriedade em Ray, vá lá. Mas não gostar de Ray e Hawks, bom, cabe aos franceses julgarem…
Filmes citados:
Aventura na Martinica, Uma (To Have and Have Not) - EUA, 1944. Dir: Howard Hawks. Elenco: Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Walter Brennan, Dolores Moran.
Hatari! (Hatari!) - EUA, 1962. Dir: Howard Hawks. Elenco: John Wayne, Elsa Martinelli, Hardy Krüger, Gérard Blain, Michèle Girardon, Red Buttons, Bruce Cabot.
Johnny Guitar (Johnny Guitar) - EUA, 1954. Dir: Nicholas Ray. Elenco: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ward Bond.
Juventude Transviada (Rebel Without a Cause) - EUA, 1955. Dir: Nicholas Ray. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran.
Levada da Breca (Bringing Up Baby) - EUA, 1938. Dir: Howard Hawks. Elenco: Cary Grant, Katharine Hepburn, Charles Ruggles, Walter Catlett, Barry Fitzgerald.
No Silêncio da Noite (In a Lonely Place) - EUA, 1950. Dir: Nicholas Ray. Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid.
Onde Começa o Inferno (Rio Bravo) - EUA, 1959. Dir: Howard Hawks. Elenco: John Wayne, Dean Martin, Walter Brennan, Ricky Nelson, Angie Dickinson.
Scarface, A Vergonha da Nação (Scarface) - EUA, 1932. Dir: Howard Hawks. Elenco: Paul Muni, Ann Dvorak, Karen Morley, Osgood Perkins.