
- por Bernardo Brum
Tal qual um furacão que passa rápido e deixa os resquícios de sua passagem por um bom tempo, Jean Vigo passou brevemente pela história do cinema, realizando um total quatro filmes e morrendo aos 29 anos de tuberculose, logo após concluir sua última obra, o aclamado O Atalante, e deixou um legado sem precedentes para a cinematografia mundial. Em seu primeiro filme de ficção, Zero de Conduta, já se via uma grande potência dessa forma de expressão em apenas quarenta e um minutos de pura expressão lírica cinematográfica.
Zero de Conduta funde uma ambientação realista e rústica com pura experimentação visual – é um filme um tanto desafiador e pioneiro no que é relativo à altura de câmera, enquadramento e composição plástica de quadro – e é pioneiro em se utilizar dos conceitos da montagem soviética, mais notadamente de Dziga Vertov (o diretor de fotografia do filme de Vigo, Boris Kaufman, é irmão do famoso teórico-cineasta russo), como se já observava em seu primeiro filme, o documentário À Propósito de Nice; a obsessão de Vigo residia menos em localizar o espectador espacialmente dentro do quadro e mais, através dos cortes secos e da manipulação temporal de fotogramas, criar toda a atmosfera de um dos primeiros filmes genuinamente rebeldes do cinema. Sua câmera inquieta é uma das primeiras a ser pensada como mais um elemento diegético, capaz de reforçar aspectos psicológicos e emoções indescritíveis verbalmente. Instrumento menos narrativo e mais poético, enfim.
Não à toa filmes contraculturais que fascinariam gerações posteriores, como Os Incompreendidos, de François Truffaut e Se…, de Lindsay Anderson, são homenagens declaradas a esta obra-prima de Vigo. No primeiro “filme de escola” marcante da história cinematográfica, o realizador mostrou seu lado polêmico e provocador: um tanto quanto autobiográfico (órfão de pai, abandonado pela mãe e provocado por colegas, o mesmo estudou em várias instituições de ensino, jamais conseguindo se adaptar a qualquer uma delas), Zero de Conduta ficou nove anos banido na França, só alcançando sua aura de “culto” anos depois da morte do diretor.
Com o objetivo de colocar o dedo na ferida a qualquer custo, esse filme, apesar de em matéria de narrativa ser estruturalmente simples é incrivelmente explícito e ousado na sua época ao desenhar a relação entre as crianças – caos, expressão e lirismo em estado puro - e os dirigentes e professores adultos, homens rígidos, truculentos e afetados. Não à toa, o reitor da escola é um personagem destacado e caricatural – uma criança pequena vestida como adulto, com uma barba postiça e voz fina, que ao mesmo tempo ridículo e ameaçador, deboche que exibia bem o desprezo do francês pela autoridade.
Não à toa que, quase vinte anos depois de O Nascimento de uma Nação instituir a maior parte das regras cinematográficas para narração, o desajustado Zero de Conduta ameaça contar uma história para então não contá-la – a história de maus tratos é interrompida a todo momento por gags visuais que no fragmento seguinte de história serão calados por alguma repressão – como o professor mais jovem e brincalhão, constantemente reprimido pela diretoria da escola, e as sequências de aula, que com planos mais demorados, mostram como as crianças do internato vêem a escola como uma prisão – onde o tempo passa lentamente.
Mas antes de ser um filme crítico sobre a repressão, é um filme com um ímpeto libertador gigantesco, como mostra seu terço final. Os alunos que fumavam cigarros às escondidas, tendo que obedecer às regras sobre horários de dormir, comer e estudar logo armam uma rebelião que surge espontaneamente na história – em certo momento, uma caveira é desenhada com giz numa bandeira improvisada, as crianças amarram o vigia adormecido e fazem uma bagunça federal – onde vemos um dos primeiros usos da câmera lenta para reforçar detalhes, impressões e sentimentos. As penas de travesseiro voam, pernas nuas correm para lá e para cá, as crianças riem por desobedecer a ordem de uma sociedade que ela jamais pediram para serem inseridas. O movimento mais alargado do filme, a anarquia pura da não-inserção. É o momento que Vigo destrói o espaço e dilata o tempo; a liberdade praticamente primitiva…
Violento e agressivo, o filme termina à base de entulhos arremessados na cara de figuras acadêmicas e políticas por infantes que mal sabem ler direito – e então mergulha no desconhecido, no final aberto, cantando enlouquecido. Término tão explosivo mas tão natural dado o jogo de opostos que acontece durante o filme, mostrando que autor de sensibilidade única era Jean Vigo – rústico e belo, cru e poético. Fora de lugar, fora da arbitrariedade, fora da narração. Justamente como a infância
5/5
Ficha técnica: Zero de Conduta (Zéro de conduite: Jeunes diables au collège). França, 1933. Dir.: Jean Vigo. Elenco: Jean Dasté, Robert le Flon, Du Verron, Delphin, Léon Larive, Madame Émile.
14 de julho de 2012 at 21:28
Por falta de procura nunca vi nenhum filme do Jean Vigo, mas irei procurar.