- por Guilherme Bakunin

Infância Nua parte de princípios similares aos de Os Incompreendidos, mas caminha distante da icônica obra-prima de Truffaut ao ater-se num rígido realismo gélido, acabando por penetrar mais a fundo na disparidade social francesa. O ano é 1968, e enquanto a França explode em revoluções comportamentais, a câmera de Pialat fecha-se em François, um pequeno deliquente abandonado pela mãe que vive sob a tutela de um casal com uma filha.

Após acompanhar parte da rotina de vida do garoto, vemo-lo atirar um gato no vão de uma escadaria, causando consequentemente a morte do animal. É de certa forma um momento significativo: a gota d’água para que a mãe da família se convença de que mandar o garoto de volta ao orfanato é a melhor decisão a ser tomada. Mas também existe um sentido que incide na personalidade da criança: matar o gato não é um ato de crueldade, mas de ingenuidade. As motivações para as delinquências de François nunca se tornam claras ao longo do filme (embora seja bastante seguro afirmar que boa parte dos seus problemas são causados pelo desgosto de ter sido abandonado pela mãe e arrancado de seu lar), mas todas são frutos da incapacidade da criança de pensar à frente, nas consequências das ações que realiza.

Aos vinte minutos o filme já é capaz de partir corações, com o penetrante olhar do garoto-protagonista enquanto é despejado pela tutelar, onde as emoções trafegam pelo desprezo, pela tristeza e pela incompreensão. Não que o filme busque artifícios para emocionar o espectador. A estética assumida por Pialat em seu filme de estréia está bem mais próxima do cinema verité do que do lirismo nouvellevagueano. Com atores não profissionais, a escassez de trilha-sonora, as talking heads típicas do documentário, o diretor se investe na intrusão e intimidade do formato documental para extrair o que há de mais autêntico de seus personagens. Por esse motivo, são comuns cenas aparentemente sem objetivo – pois delas decorre a construção do mosaico de empatias que constitui Infância Nua.

O realismo almejado por Pialat não é maniqueísta nem hipócrita. Infância Nua não é um denso drama, mas alguma coisa entre o character-driven e o set-pieces-driven, oferecendo momentos de genuína harmonia (muitos deles envolvendo a personagem “avó” de François) em contraste com a inteligibilidade de outros (as constantes brigas do garoto). Existe, de fato, a ambição de um retrato escancaradamente nu do determinado estilo de vida de crianças como François. Pialat chegaria a declarar que Infância Nua não era um grande filme, mas seus méritos não podem ser negados. A sinceridade desses personagens e a maneira como eles estão inseridos nessa França marginal às revoluções e multidões são magistrais demais para serem negligenciadas.

5/5

Ficha técnica: Infância Nua (L’enfance Nue) – França, 1968. Dir.: Maurice Pialat. Elenco: Michel Terrazon, Linda Gutemberg, Raoul Billerey, Pierrette Deplanque, Henri Puff, Marie Marc, René Thierry, Maurice Coussonneau.

About these ads