- por Fábio Visnadi
Clint Eastwood é provavelmente um dos mais assíduos seguidores do cinema de John Ford na atualidade. Todo seu trabalho é pautado num cinema essencialmente narrativo, carregado de nuances no que diz respeito à construção de personagens e suas jornadas passionais e conflituosas, através do silêncio e do encadeamento dos enquadramentos, que dizem muito onde se fala pouco, mas se há muito pra falar. Assim como a auto-imagem que conservam; tanto Clint quanto Ford nutrem a imagem de caras durões, que pouco falam, meio conservadores, mas extremamente passionais, onde um gesto duro, um olhar condenante ou uma ruga no rosto dizem bastante a respeito de suas histórias.
“Sobre Meninos e Lobos” funciona dessa maneira e há inúmeros exemplos dentro da obra onde o silêncio e o passional estão intimamente ligados. Se não há Clint em meio ao elenco, temos Sean Penn fazendo o mesmo tipo psicológico de personagem que o veterano cinematográfico sempre fez em suas obras (tanto no que diz respeito à Clint como ator exclusivamente, como em seus trabalhos de direção, vide Gran Torino).
A velha vizinhança de Boston está arruinada. A inocência de três garotos jogando hóquei nas ruas da região não é capaz de mudar os rumos que sua vida iriam tomar. A bola de hóquei cai em meio a um bueiro. “Acho que não sei controlar muito bem a minha força”, diz um deles. Mas sabemos que se abríssemos esse bueiro, encontraríamos uma grande parte de bolas perdidas. E se cavarmos bem fundo, podemos encontrar muitas dessas bolas perdidas em meio ao interior e forças que os protagonistas tentam controlar, em meio ao silêncio que acaba regendo suas vidas.
No meio dessas brincadeiras, Dave Boyle é abordado por um sujeito que se passa por policial, repreende-o por um ato juvenil e o leva para um cativeiro onde abusa sexualmente dele durante dias. São os lobos, como Dave gosta de afirmar. Ele foi mantido em cativeiro pelos lobos e a partir desse dia ele se tornaria uma espécie de vampiro moral, nunca mais sendo o mesmo garoto. Dave silencia o seu eu interior.
Entre os outros dois garotos, temos Sean Devine e Jimmy Markum. Jimmy Markum, interpretado por Sean Penn, tem sua filha assassinada e Sean Devine, seu amigo de infância e agora policial, passa a investigar o crime. Entre os suspeitos, encontra-se Dave Boyle, seus amigos, o garoto perturbado, o vampiro, o morto-vivo.
A jornada passional que rege a vida dos três protagonistas faz parte essencialmente dos seus interiores. Enquanto temos Boyle numa espécie de constrangimento e vergonha decorrentes dos acontecimentos traumáticos de sua infância, vemos o rapaz preferindo assumir um crime que não cometeu e de que não tem a menor ligação, justamente pelo fato de temer o assassinato que realmente realizou. Era totalmente justificável, diz Jimmy, pra sociedade e pros valores morais de cada um. Mas não pra ele. Ele temia se tornar um lobo.
Sean Devine funciona como um elo narrativo entre a jornada de Dave e de Jimmy. Tem uma função mais objetiva dentro da obra, estabelecendo as relações entre as personagens e suas historias. Mas mesmo Sean, de certa forma um personagem mais superficialmente construído, tem o silêncio dentro de sua vida. Somos apresentados à pequenas sequências, onde o policial está ao telefone, numa espécie de monólogo, sem a resposta de um dos interlocutores. Enquanto ele não se resolver internamente, ele continuará se afastando de si mesmo e silenciando-se.
Já Jimmy é o personagem mais passional, o “bad boy” do coração de ouro. Assim como no cinema de John Ford (e de tantos outros grandes cineastas, mas principalmente no cinema desses dois), a verdade que rege suas vidas é estritamente subjetiva, entende-se o personagem sem maniqueísmos, sem bem ou mal, mas tudo que se vê é a amargura de suas vidas, onde busca-se uma redenção, mas ele mesmo não tem noção de como se construirá essa redenção ou de até onde essa redenção será justa universalmente ou apenas dentro do campo moral e do silêncio de sua alma.
O título em português, “Sobre Meninos e Lobos”, talvez seja um dos raros casos em que a tradução diz mais a respeito da obra do que o título original. Não há julgamentos ou a justiça dos homens no filme. São garotos, com sua própria constituição moral regendo suas existências, onde o lobo pode ser um cordeiro e o cordeiro pode ser um lobo. Mas mais do que isso, o menino nunca será silenciado dentro do lobo (Jimmy diz que prefere acreditar que tudo não tenha se passado de um sonho), e o lobo dentro dos meninos raramente será silenciado, mesmo em meio ao cotidiano banal de suas vidas, já que é mais fácil encontrar a verdade naquilo que não é dito.
5/5
Ficha Técnica: Sobre Meninos e Lobos (Mystic River) - EUA, 2003. Dir: Clint Eastwood. Elenco: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne.
