Quem não é muito familiarizado com os dramas da televisão americana (ou inglesa ou norueguesa, também merecedoras de destaque) pode ficar facilmente atraído pela ideia de que é extremamente improvável que uma história contada na televisão é, necessariamente, inferior a um bom filme. Especialmente nos últimos quinze anos, esse valor tem sido, sem misericórdia, desafiado, e as séries de televisão nos Estados Unidos têm se tornado cada vez mais inteligentes, enigmáticas, significativas. Valorizando mais o roteiro do que a direção, as histórias na tv têm, progressivamente, assumido contornos de alta amoralidade, crítica e catarse. Eis cinco séries de televisão dos últimos anos que não ficam atrás dos melhores filmes do seu gênero.

5. The Sopranos (David Chase, HBO, 1999-2007)

O protagonista de The Sopranos é Tony, um mafioso italo-americano, misógino, violento, adúltero, hipócrita. Se o cinema já tem explorado esse tipo de comportamento autodestrutivo desde os anos 40, os exemplos são extremamente raros na televisão. Além do mais, toda a dinâmica da série subverte o “gênero” máfia, estabelecendo-se como um drama de comportamento, um epopeia familiar, um panorama do crime de Nova Jersey. É uma série transgressora e, como qualquer obra que transgride, possui certos vícios, certas imperfeições. Há quem reclame do ritmo, há quem reclame da caracterização esteriotipada. Nenhum vício pode, no entanto, apagar o brilhantismo temático desse que é o primeiro romance da tv americana.

4. The Good Wife (Michelle e Robert King, CBS, 2009-)

As séries jurídicas geralmente são uma merda, mas não deixem o gênero lhes enganarem nessa daqui. The Good Wife, produzida pelos irmãos Scott,  utiliza-se de polêmicas e casos reais para criar suas histórias, comentando a realidade e expondo a falta de escrúpulos de seus personagem (e da própria realidade americana) sem hesitação. A cada episódio, é mais forte a sensação de que absolutamente todas as pessoas nesse seriado são simplesmente filhas da puta.

3. Mad Men (Matthew Weiner, AMC, 2007-)

Mad Men utiliza-se de seus dois personagens principais, Don Draper e Peggy Olson, para destrinchar o universo e a cultura dos anos 60, conhecido pelo forte questionamento de valores e choque de gerações. O crítico de arte Simon Schama disse uma vez que, nos anos 60, a América estava presa entre a guerra e a publicidade. Eis aqui, então, justamente um protagonista veterano da guerra da Coréia que é diretor de arte de uma agência de publicidade. É através de seus passos que, a cada temporada, o comportamento da época é decifrado com sutileza, objetividade e inteligência.

2. Breaking Bad (Vince Gilligan, AMC, 2008-2013)

Com suas quatro temporadas (a previsão é que se encerre na quinta), Breaking Bad foi aonde nenhum filme de ação jamais foi: o espectador, diante de cada episódio, está em transe absoluta, incapaz de reagir, de pensar. A cada temporada acompanhamos, com ironia e adrenalina, o caminho do outrora pacato pai de família e agora traficante  de metanfetamina Walter White rumo a sua inevitável morte.

1. The Wire (David Simon, HBO, 2002-2008)

The Wire nasceu com o projeto de relatar a relação original de Ed Burns com o Departamento de Polícia de Baltimore, passando pelo combate aos traficantes de drogas, pelo uso de tecnologia para combate ao crime organizando e concentrando-se na burocracia como o maior entrave para a instituição da ordem. Não existem, de maneira alguma, protagonistas na história. No máximo podemos encontrar um grupo de mais ou menos dez ou quinze personagens mais importantes, que não obedecem exatamente uma escala hierárquica. A série articula seus arcos dramáticos duma forma a atingir esse potencial. E não apenas isso, mas cada temporada da série narra uma investigação própria, o que significa dizer que à parte dos dez ou quinze personagens principais, há ainda um outro grupo que se junta a esse para formar um aglomerado ainda mais extenso de fascinante de personas.Na verdade, seu protagonista é a cidade. Não especificamente Baltimore, mas qualquer centro urbano que também é lentamente consumido pela fumaça, carros, prédios e loucura. O estudo que o criador, David Simon, oferece parte de uma declaração dada por ele numa entrevista, relacionando sua série com uma tragédia grega onde, ao invés de deuses imersos em inveja e petulância, as instituições pós-modernas assumem seus papéis, despejando raios e trovões nos personagens.

Segundo Simon, The Wire é estruturado segundo um romance, não como um seriado de televisão. E a crítica não encontra dificuldades em comparar o show com os obras de Dostoevsky, Dickens ou Balzac, pois não existe absolutamente nada na estrutura da série que encontre identificação com algum outro programa de tv anterior. A ideologia cristã romântica americana simplesmente não pode dar espaço a ideia de que uma situação foge ao controle das mãos do homem. É antimotivacional. O homem espera uma redenção e, se lutar por ela, com toda sua alma, com todas as suas forças, é capaz de alcançá-la. E se o homem não a conseguir, a vitória é garantida por Deus. E todos os programas mais ou menos refletem essa perspectiva heróica. Em The Wire, por outro lado, os personagens estão expostos a uma situação de caos inexorável e, por isso, é uma história essencialmente clássica, e o melhor que as pessoas podem fazer dentro de seu universo é cumprir suas obrigações e agir com dignidade. O estudo minucioso do cenário político, o desenvolvimento de personagens mínimos construído paralelamente com a ação investigativa, a morte de personagens de extrema importância e sem sobreaviso e inúmeros arcos dramáticos sendo criados e abandonados para serem retomados em qualquer outro momento acontecendo ao mesmo tempo fazem com a série seja um espetáculo de difícil contemplação e de observação paciente.