- por Michael Barbosa

O ponto de partido é verídico; uma dupla de gêmeos ginecologistas encontrado no apartamento em que moravam sob estranhas circunstâncias. O que Cronenberg se propõe a fazer, então, é traçar o caminho que levou os dois irmãos àquele fim e, partindo disso, entregar um exercício de suspense psicológico de primeira e explorar discussões valiosíssimas, que vão da individualidade à ética médica.

Os irmãos Mantle (ambos brilhantemente interpretados pro Jeremy Irons) são os dois lados de uma mesmo personalidade, as duas metades de um médico ginecologista. Beverly – que tem “nome de mulher” – é o mais doce, tem postura indefesa, pueril e ingênua; é dependente do irmão de forma pública, visível. É, por sua postura, o que tem contato mais próxima com as paciente da clínica. Elliot é o falastrão, o esperto, malicioso, conquistador; é dependente do irmão, mas de forma velada, num jeito que passa batido à primeira vista. Eles dividem tudo, e em um companheirismo bem doentio, até as mulheres, Elliot, que é mais sociável sempre dá o primeiro combate. Bev na clínica e Elliot nas convenções e palestras, tudo vai bem no estranho mundo perfeito dos dois até terem a vida cruzada por uma atriz de cinema, Claire Niveau, que desperta o interesse de ambos inicialmente por ter um útero “trifurcado” (sic) e acaba, em seguida, por despertar uma paixão inédita em Beverly.

Crona mostra, assim, como poder ser fácil quebrar um teto de vidro. Pois Niveau com seus questionamento e remédios desmonta a torre criada por esses dois e o que vem em seguida é a demonstração de que não existem dois personagens ali em tela, mas, de novo, duas metade de um só indivíduo, espirutalmente e intelctualmente uno, como deixa claro a metáfora do sonho de Bev onde ele e o irmão são gêmeos siameses, os Mantle passam a viver, num clima claustofóbico, o desmoronamento do que parecia perfeito até então e a partir disso Croneneberg desenvolve um exercício de suspense dos mais interessantes, entre sonhos e crises de abstinência a paranóia toma conta do ser de Bev e quando menos esperamos de Elliot também, dois em um.

Mas Dead Ringers é, também, espaço para Cronenberg explorar um dos temas mais comuns seu cinema, um lugar comum que ele visitou durante toda a carreira: o corpo humano. Já no seu ainda incipiente Crimes do Futuro o diretor mostrava todo seu interesse pelo tema ao se valer de um fiapo narrativo para contar a história de órgãos mutantes no corpo humano e estudiosos do pé. Mas não foi só, as coisas voltariam a passar por essas bandas em Enraivecida na Fúria do Sexo e A Mosca. O Corpo humano, a mente humana e mutações, pois bem, estão todos aqui em Dead Ringers, em meio a história dos irmãos há também espaço para questionar a própria medicina; o que é visionarismo e vanguarda e o que é insanidade? O debate é aberto e assim deixado, para que o espectador se responsabilize pelo julgamento.

A sensação, no fim das contas, quando finalmente podemos relaxar ao final do filme, é de ter visto um expoente total do cinema cronenberguiano, é a tensão constante, a construção e desconstrução de personagens, a direção de atores inspirada; é o sci-fi tendo seu encontro com o terror ao redor do corpo humano, as imagens poderosas que relutam a sair da nossa mente, é quando vimos um tumor que liga irmão gêmeos ser – ali na tela, sem desviar a câmera – arrancado com a boca que não restam dúvidas das proporções do cinema de David Cronenberg.

4/5

Ficha técnica: Gêmeos – Mórbida Semelhança (Dead Ringers) – EUA/Canadá, 1988. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Jeremy Irons, Geneviève Bujold, Heidi von Palleske, Shirley Douglas, Stephen Lack, David Cronenberg, Barbara Gordon

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