- por Guilherme Bakunin

Pagando tributo a O Iluminado, o clima prosaico e familiar que abre Marcas da Violência não funciona nem bem como um artíficio pra surpreender o espectador quando da chegada de um evento que seja tão o oposto disso (nesse caso, um ato de violência quase instintivo de Tom Stall, interpreto pelo Mortensen). Não, ninguém se engana com essa trilha de violinos contidos e esses sorrisos do casal protagonista. Acho que o que impera mais aqui nesses primeiros 20-30 minutos de filme é o cinismo do Cronenberg em construir toda essa atmosfera só pelo prazer de destruí-la mais pra frente.

Tom é um morador dedicado de Millbrook, Indiana (cidade fictícia), pai de dois filhos, bem casado com Edie (Maria Bello), dono de uma pequena lanchonete local. Tom vive nessa vida bem pacata até que dois assaltantes ameaçam a vida de uma de suas funcionárias. Instintivamente, Tom arrebata os dois delinquentes, transformando-se num herói local. Sua foto aparece nos jornais, na televisão, e não demora muito para que Carl Fogarty apareça em sua lanchonete, declarando que Tom não é quem diz, desestabilizando por completo a vida de sua família.

Beleza, essa é a história, mas a gente precisa prestar especial atenção em algumas coisas. Primeiramente, as duas cenas de sexo do filme, que são fortes, justamente porque o Cronenberg quer que a gente as observe atentamente. Podemos dizer que Edie transa com duas pessoas diferentes ali. A primeira é o Tom, a segunda, nas escadas, é Joey, o louco. Na cena da cheerleader, tudo é lento, gradual, equilibrado. Porra, fizeram um 69’ se tornar algo gracioso ali. E depois do sexo, o casal se olha, se abraça, ali naquele negro insólito, estão juntos isolados naquele universo bem particular, conversando, compartilhando coisas (e essa conversa é decisiva pro filme, mais ali na frente). No sexo nas escadas, o negócio é brutal, typical Joey (lembrar do Ricthie comentando de quando o Joey pegou uma mulher num bar, na frente de todo mundo). Depois o êxtase, o casal se encara por uns dois segundos, e aquilo é doloroso demais, então Edie sobe as escadas, sem olhar pra trás. Isso porque ela sabe que é outra pessoa ali, no corpo do marido.

É importante, pelo menos pra mim, perceber que existem dois protagonistas numa luta moral e até espiritual (!) em Marcas da Violência, ambos interpretados por Mortensen. E o fato de Joey ter se transformado em Tom há mais ou menos 20 anos (ele deve ter uns 40 anos de idade), exata metade do tempo de sua vida, dualiza muito bem esse tipo de ideia. É como se, dentro do corpo do cara, essas duas personalidades dissessem “ok, cada um teve sua hora, agora vamos ver quem fica pra valer”. Nos tempos da pacata Millbrook, Tom deve ter se sentido bem exorcizado do seu passado, quase como se todos os atos terríveis que praticou na Filadélfia não tivessem acontecido com ele. Mas no momento em que ele vê as manchetes nos telejornais, é como se um monstro adormecido despertasse dentro dele. Joey aparece por alguns segundos ali, vocês podem voltar no filme pra ver. Mas como se estivesse sonolento, consegue ser controlado. Progressivamente, torna-se mais difícil retê-lo.

Veja por exemplo o confronto entre o Mortensen e a Bello na cama do hospital. Ele confessa que é realmente quem Fogarty dizia ser, e a esposa, enojada, vomita no banheiro. Voltem no filme, sério. O personagem do Mortensen dá um sorriso ali, tão mau, tão sádico. Não é uma atitude exatamente humana, é tão cruel que se torna fantasia. Como todos os atos de violência de Joey no filme. E o sadismo de Joey é tão pertencente a esse universo da fantasia, do surreal, que se espalha como uma doença. Afeta a mulher (que é atraída por ele na cena do sexo na escada) e o filho. Essas são as marcas da violência da qual o título em português do filme fala.

O título original, no entando, faz menção à história de violência no passado de Tom. Um passado que bateu à porta e que não poderá mais ser ignorado. Por isso, Tom, na verdade, pra ser mais preciso, Joey viaja até Filadélfia para prestar contas com o passado, com o irmão, que quer matá-lo. Joey mata o irmão, mas isso quase não é importante. O lance mesmo é que toda a história de máfia e violência são ideias usadas para representar a ideia do próprio passado do protagonista desse filme, que mesmo tendo vivido de forma “correta” por vinte anos, não teve direito a uma segunda chance daqueles que faziam parte dessa nova vida em retos caminhos.

Por isso Joey vai até Filadélfia, uma viagem bem simbólica bem ao estilo Embriagado de Amor, exorciza de vez o seu passado e volta pra casa. A família está à mesa. A mulher está paralizada. Joey está lá, encarando apreensivo essa cena. Está claramente ansioso, como se estivesse querendo esconder de sua esposa que era Joey quem estava ali, e não Tom. Ela olha nos olhos dele, e abaixa a cabeça. Ela conhece esse olhar, sim senhor. Mantém a cabeça abaixada, sem fazer nenhum movimento. A filha se levanta, pega um prato e os talheres e põe à mesa. Oferece o lugar ao pai. Diante dos nossos olhos, Mortensen (bem auxiliado pela câmera do fotógrafo Peter Suschitzky) se transforma de Joey em Tom. Com uma postura completamente diferente, ele se senta à mesa, o filho lhe passa o tabule de carne. Edie olha nos olhos do esposo. O esposo olha em seus olhos. Eles se encaram por alguns segundos e reconhecem, naquela troca de olhares, os mesmos olhos apaixonados a que se referiram na primeira cena de sexo.

5/5

Ficha técnica: Marcas da Violência (A History of Violence) – Canadá, 2005. Dir.: David Cronenberg. Elenco:  Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk, Kyle Schmid.

About these ads