
- por Allan Kardec Pereira
É preciso, antes de mais nada, pensar Apichatpong Weerasethakul – Joe para os ocidentais – como uma criação de uma dada crítica, muito influente no meio cinéfilo e em alguns festivais: a crítica francesa, especialmente a Cahiers du Cinéma. Digo sim. Grande parte do reconhecimento de Joe no cinema ocidental se fez junto a esse circulo de críticos. Afinal, há de se perguntar: quanto Apichas/Joes existem mundo à fora escondidos por falta de divulgação?
Pois bem, vamos ao filme. “Tio Boonmee” atiçou a curiosidade de muitos por ter ganho Cannes, considerado o grande festival de filmes que flertam com uma proposta de cinema mais autoral ou de arte. A história é de um mano tailandês que tá na beira da morte. Partindo daí a coisa começa a pirar – para nós, claro. O espírito de sua mulher volta para o ajudar, seu filho que havia sumido no meio do mato se transformara em uma fera da floresta também chega pra tentar ajudar o coroa. Boonmee vai pra uma caverna da região e morre.
Ok. Vemos que trata-se de uma história fora dos padrões ocidentais. Mais o que nos levaria a se interessar por tal história em tese banal? Forma? Conteúdo filosófico? Psicológico? O que nos leva a admirar um filme que trabalha com uma cultura tão diversa da nossa? Joe e seu cinema questionam isso. Não que ele queira saber disso, mas assistindo filmes de uma cultura fora do cânone cristão-judaico-ocidental, sempre há de haver tais questionamentos.
É nesse momento que entra uma questão cara a cinefilia: a “imersão” e os mais variados sentidos que tal palavra pode ter. Em outro filme de Apicha, “Mal dos Trópicos”, vemos de início uma história de dois japas do mato que são gays, que namoram e tal, e que depois, vira um dos maiores episódios de mistério do cinema recente, onde a floresta e sua imensidão de sombras e sons sufocam o espectador em uma busca ao mesmo tempo insana e misteriosa. Aqui, em “Tio Boonmee”, falta “imersão” em um tanto de cenas, o não-dito de um cinema oriental-desconhecido soa com muito mais excessivamente pretensioso aos olhos de um ocidental do que qualquer filme daqui, acaba tornando-se tédio. Simplesmente porque não há como disfarçar o lugar do qual falamos e sentimos o filme. Muito do que passa em “Tio Boonmee” soa não apenas como distante à nós mesmos, como vazio de sentido a qualquer hipótese de cinema. O embate surge vazio, sem valor crítico, ao contrário do que acontecia em “Mal dos Trópicos”. O filme acaba sendo decepcionante, não porque choca tudo aquilo com o que você pretendia dele, afinal, de um filme de uma cultura tão distante nada tem-se que esperar, afinal nada podemos tomar de lá como parâmetro, mas sim por se tratar de uma experiência esgotada em seu conjunto, apenas com lapsos de brilhantismo, sem uma coesão de imersão narrativa. E isso digo do meu lugar de ocidental educado a assistir filmes aqui. Nem toda surpresa o agrada, certamente.
3/5
Ficha Técnica: Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee Raleuk Chat) - Alemanha/Espanha/França/Reino Unido/Tailândia, 2010. Dir.: Apichatpong Weerasethakul. Elenco: Thanapat Sausaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee.
11 11UTC fevereiro 11UTC 2011 at 12:59
ae, to com o Mal dos Tropicos e o Sindromes e um seculo aqui pra assistir antes desse. legal ter uma outra visao sobre o filome, jah que todo mundo tah babando ovo pra ele, haha.
11 11UTC fevereiro 11UTC 2011 at 20:56
e Allan, gostaria de ver uma crítica sua pra algum filme do Michael Mann! =)
12 12UTC fevereiro 12UTC 2011 at 12:47
pode ser, Jorge. Sou muito fã do Mann. Pode ser que eu comente sobre “Miami Vice” esses dias…
12 12UTC fevereiro 12UTC 2011 at 17:30
Vou assistir porque se trata dos Coen, mas não gosto da primeira versão.
http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com
9 09UTC março 09UTC 2011 at 11:55
Allan
9 09UTC março 09UTC 2011 at 12:13
Allan na infância ia muito para a casa do meu avô, ele morava num fazenda e tive muito contato com a natureza. Ele contava que um amigo dele se transformava em lobisomen. A minha vó falava da caipora. Esse universo é algo que faz parte das crenças, o imaginário em qualquer canto do mundo tem seu universo mítico e de crenças, então não sei por que você acha distante. Viaje pra qualquer canto que tenha tradição oral e cantato com a natureza que você vai conhecer sobre o boto. Quando estudamos o folclore entramos em contato com esse universo de crenças. O filme nos conduz a essa dimensão da relação anímica com o universo. As nossas matrizes africanas e indígenas tem muito para nos falar sobre essa dimensão da vida.
9 09UTC março 09UTC 2011 at 20:03
Entendo seu ponto de vista, mas quando falei estranho, pensei o cinema ocidental, não a cultura oral do ocidente como todo. O filme ele cria seu universo como se essas crenças fossem algo presente a todo tempo. Falo da experiência de cinema ao qual estamos acostumados, o que certamente o cinema de Apicha fica como algo estranho aos nossos costumes de cinema sim.