
- por Mike Dias
É sensacional ver Clint Eastwood, aos 80 anos de idade, ainda surpreendendo. Não, não é isso, Além da Vida é sim um melodrama, assim como quase todos os filmes recentes do diretor, mas quem poderia prever que viria de um diretor como Clint uma das melhores sequências de cinema catástrofe em muito tempo? Pois é, foi ele, e se Além da Vida terminasse aos 5 minutos ainda assim é provável que ter visto o incrível do tsunami devastando a Tailândia por si só faria valer o ingresso.
Hereafter é um daqueles filmes que apresentam a história de várias pessoas – aparentemente sem ligação nenhuma – e que acabam por se cruzar (Magnólia, Short Cuts e A Trilogia das Cores são exemplos de obras que de um modo ou outro passam pela mesma ideia). Aqui o que liga essas três pessoas é a estreita relação que elas têm com a morte, George consegue fazer a comunicação entre os mortos e vivos e se sente amaldiçoado por isso, Marie após uma experiência de quase-morte está obcecada com o tema e Marcus, o gêmeo tímido e acanhado, não consegue lidar com a morte do irmão.
Em marcha lenta e passando de maneira sequencial pelas histórias dessas três pessoas Clint mostra que ainda está em boa forma e consegue efetivamente dialogar com uma sensibilidade latente sobre questões cada vez mais complexas. Se a morte já se fazia presente de maneira ativa no debate de Menina de Ouro sobre a eutanásia ou no sacrifício final de Gran Torino aqui é mais do que um mero elo de ligação, mas sim quase uma personagem viva e onipresente na tela, que persegue a todos e insiste em cruzar suas vidas por mais de um vez. Como numa sequência filmada a maestria e realmente de arrepiar em que Marcus se salva de estar no vagão detonado do metrô de Londres graças ao boné do seu falecido irmão que cai no chão.
Sobre nenhum ponto de vista mais lógico Hereafter vai deixar de ser um filme feito com uma quase obsessão pelo “emocionar”, um filme feito sobre os preceitos classicistas que Clint mostrou durante quase toda carreira que acredita serem os melhores pra discursar sobre seus temas, um dramalhão, tanto quanto A Troca e Menina de Ouro, mas dentro dessa consciência fílmica de saber exatamente por quais caminhos está andando o que temos é um filme tocante, a despeito de diálogos piegas e de um discurso que tem que fazer um esforço enorme e nem sempre muito natural para conseguir se afastar de parecer panfletário ou proselitista – já que não dá para dizer que o filme preze exatamente pela imparcialidade ao menos quanto à questão de haver algo além da morte que está enraizado no argumento da história e apresentado como fato quase irrefutável todo o tempo.
Mas quando vemos o menino Marcus chorando e pedindo por favor para não ser deixado e George tomando coragem para agir rumo ao direito de tentar ser feliz dá para ter a certeza: Clint Eastwood com sua sensibilidade latente e uma direção de atores das melhores – e que faz Matt Damon parecer o sujeito mais melancólico do mundo – chegou lá, de novo, ainda que abaixo da média dos filmes de Clint e possivelmente o mais fraco dele na direção, na pior das hipóteses, Além da Vida ainda assim é um filme incrivelmente bonito e com umas 3 ou 4 sequências de encher os olhos.
3/5
Ficha Técnica: Além da Vida (Hereafter) – EUA, 2010. Dir: Clint Eastwood. Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Frankie McLaren, George McLaren.
7 07UTC junho 07UTC 2011 at 9:51
eu particularmente adorei esse,dou 4/5 pelo poder das imagens que o Clintão nos apresenta,todas as tomadas do Damon comendo solitario em sua casa é de cortar o coração,com os angulos certos e a fotografia sempre pesada no escuro.A cena que o personagem de Damon perde um “possivel” amor é de cortar corações tb,pelo menos o meu foi pro espaço ali,e tem é claro as cenas ja citadas,e que de todos os arcos,o que menos gosto é o da reporter,que por vezes acho bem enjoadinha.
19 19UTC junho 19UTC 2011 at 1:38
Foi o filme mais entediante que já vi em toda a minha vida, uma forma prolixa de contar coisa alguma, sem começo, meio nem fim. Simplesmente pavoroso. Quem espera ver um típico filme de Clint Eastwood, esqueça. Nem os filmes non-sense franceses da década de 70 conseguem ser tão entediantes.
28 28UTC dezembro 28UTC 2011 at 1:18
eu esperei ver um típico filme do Eastwood, e achei que correspondeu bem de acordo às expectativas. a condução é magistral, coisa que pouquíssimos podem fazer. saber exatamente o que, quando e onde mostrar alguma coisa pra contar uma história, coisa de mestre.
dei mais valor que você, mike, e achei a abordagem bastante agnóstica, até, dada a maneira como estabelece como verdadeira a premissa do ‘hereafter’. o final, com o personagem do matt damon tendo uma expectativa em relação ao futuro que é frustrada, e enxergando aquilo como um sintoma positivo de uma vida normal é maravilhoso, indescritível.