
- por Guilherme Bakunin
Em 2004 a cineasta Debra Granik ganhou notoriedade ao lançar o ainda inédito no Brasil Down to the Bone (2004). Precisou quase seis anos pra que ela pudesse concluir Inverno da Alma, filme que tem conquistado a duros esforços platéias do mundo inteiro ao vencer o Festival de Sundance desse ano. Down to the Bone fala sobre uma mulher casada que procura constantemente esconder seu vício em drogas do marido mas que com o inverno, não consegue mais ser capaz de reprimir seu horror pessoal. Inverno da Alma possui suas semelhanças, pois mostra uma família disfuncional que também chega perto de um colapso nervoso (sempre psicológico, sempre interior) no inverno.
É a história de Ree Dolly, a irmã de mais velha de três filhos de Victória, uma mulher que enlouqueceu, segundo a filha, para escapar da vida problemática ao lado do marido. Ree tem 17 anos, mas já cuida da mãe que vive como um vegetal e dos dois irmãos mais novos, e recebe a notícia que seu pai, Joepp, está foragido e se ele não comparecer ao tribunal para ser julgado por cozinhar metanfetamina, sua família pode perder a casa. Ree vai então procurar os rastros do pai desaparecido com conhecidos de sua família, na esperança de poder impedir a perda da casa.
Inverno da Alma emerge do mistério absoluto para vagarosamente se revelar ao espectador. De uma família de quatro pessoas, somos lançados no meio de uma trama que envolve crimes, drogas, assassinatos, para descobrirmos que todas essas pessoas estão tragicamente ligadas por um laço de sangue. Só que o código de honra no crime se sobrepõe à família, e com o passar do tempo torna-se certo que Ree está procurando não o pai, mas seu cadaver.
O único perigo que constantemente ameaça a existência da protagonista vem de seu próprio sangue, e as únicas pessoas que fazem parte de sua família que podem ser confiáveis são a sua mãe-vegetal e seus dois irmãos mais novos. Ree portanto é extremamente individualista, independente, batalhando sozinha dia após dia para permanecer em pé até o último fragmento de sobrevivência. No começo do filme, seu individualismo é ressaltado em várias sequências onde ela, caminhando sozinha, chega a várias pessoas (que naquele gêneses, ainda são completamente estranhas a nós que assistimos ao filme) para procurar auxílio na busca pelo seu pai desaparecido. Ree pede ajuda àquelas pessoas não como quem pede alguma coisa, mas como alguém que cobra um favor. É mais ou menos assim que, acredito, ela pensa sobre aquela situação. Quando ela critica a amiga por obedecer ao marido a gente também percebe bem isso.
E Inverno da Alma é um filme sobre esse conflito latente entre essa garota que procura incessantemente escapar dessa corrupção que assombra sua família e sua comunidade se isolando de praticamente tudo que existe ao seu redor. Um trabalho atmosferico que nos remete ao período romântico mais grandioso, com suas paisagens insólitas e nebulosas refletindo, obviamente, a personalidade dessa garota. Um dos trabalhos mais magníficos de construção de clima e, (segundo o que eu espero e acredito do cinema) consequentemente, um dos melhores do ano.
5/5
Ficha Técnica: Inverno da Alma (Winter’s Bone) – EUA, 2010. Dir: Debra Granik. Elenco: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Valerie Richards, Shelley Waggener, Garret Dillahunt, John Hawkes, William White, Ramona Blair, Lauren Sweetser, Cody Brown, Cinnamon Schultz.
5 05UTC janeiro 05UTC 2011 at 12:08
Parabéns pelo Blog! é sempre bom ver pessoas verdadeiramente apaixonadas pela sétima arte, assim como nós!
Ainda não tivemos oportunidade de checar esse filme, mas parece muito bom, e seguiremos a sugestão
O blog de vocês já está adicionado na nossa lista. Mais uma vez, Parabéns.
http://thetop250imdbnerdproject.blogspot.com/
7 07UTC janeiro 07UTC 2011 at 0:25
bom mesmo
o lance é o clima, aquela negócio de “que américa é essa?”, a obstinação dela…
7 07UTC janeiro 07UTC 2011 at 1:52
top 5 de 2010.
cinema foda de dar gosto.
7 07UTC janeiro 07UTC 2011 at 2:50
Um dos melhores do ano, mesmo. A cena do sonho dela resume todo filme, acho.
8 08UTC março 08UTC 2011 at 22:34
Nao sou de esquerda. O filme mostra a realidade raramente contada nos filmes estadunidenses, a pobreza. Mostra o lado da verdadeira liberdade estadunidense.
Fora o lado político do filme achei a luta e o amor de Ree pela família comovente. Sempre li que esse lado familiar do pobre era brasileiro e raro no mundo. Descobri que nao.
Adorei o filme.