
- por Bernardo Brum
“Prefiro o cinema mentira. A mentira é sempre mais interessante que a verdade”, disse certa vez Federico Fellini quando perguntado acerca da da sua opinião sobre o cinema verdade. O homem que fez o cinema parecer um grande circo filmado, com pessoas exóticas, artistas deslumbrantes e personagens tragicômicos como a humilhada prostituta Cabíria ou o misógino diretor de cinema Guido Anselmi dava o recado que não há mentira maior do que o cinema, essa grande fábrica de ilusões, mas que talvez o único meio de alcançar a verdade fosse participando desse jogo de inverdades. Afinal, mesmo com todas as mentiras incrustadas em si, não há nada mais expositivo que uma câmera.
Foi o que Woody percebeu quando criou a partir de 8½ sua obra mais confessional, Memórias. O auge da piração cinematográfica de Woody registrada sob a fotografia hábil de Gordon Willis condensa tudo: muitas mulheres, traição, idolatria, colapsos nervosos, ilusionismo, metalinguagem, alienígenas, bicicletas ergométricas, laços de sangue, vício em remédios, questionamentos existenciais e assim vai em um espirala completamente incontrolável de um diretor que muitos tomam por fazer um cinema sóbrio e lúcido, tipicamente mais “educado” e “clássico”, e parecem desconhecer ou ignorar que muitas de suas obras estão na vanguarda do cinema moderno. Para os que possam perceber isso como um exagero, basta lembrar que, nas mãos de Woody, as provocações estéticas hoje herméticas da nouvelle vague viravam produto pop, profundo e acessível, denso e simples ao mesmo tempo.
E, novamente, Memórias, antes de ser uma provocação, subversão ou quebra de convenção, é um diretor falando diretamente com o seu público, deformando, para isso, seu próprio cinema. A típica distorção que Woody imprime ao seus alter-egos para que não confudam com a realidade está presente, pois sim, mas é tudo exercício de criação cinematográfica. Quem não queria, como diria ele em Desconstruindo Harry, dar certo na vida, mas ao invés disso, só consegue mesmo dar certo na arte?
Este é Sandy Bates, o alter-ego que Woody Allen cria em busca não apenas da redenção, mas também da comunicação. Memórias não tem compromisso com nenhum teórico cinematográfico ou tendência artística em voga; seu dever é falar ao público, tão e somente isso. As mentiras que o criador conta são muitas: Sandy está no limiar de uma crise nervosa, o que é trágico para um diretor que fazia sucesso com comédias e passou a dirigir dramas pesados com finais desgraçados e não consegue falar com o seu público sobre o que se passa com ele; tem a famosa foto de Eddie Addams de um vietnamita levando um tiro na cabeça em tamanho gigante pendurada em sua sala de estar; não consegue esquecer a sua antiga paixão; está frequentemente em problemas com a atual; e pior ainda, não consegue ser mais engraçado. Ou mesmo se divertir. Se rir de tudo é desespero, não rir de nada é, definitivamente, a extinção.
No cinema deformado supracitado, a narrativa que Woody criou para esta obra em particular faz de Memórias, em primeira instância, uma obra completamente tresloucada: muito além do circo de Fellini, longe de tornar Sandy Bates um Guido anglófono: uma história sem início, meio e fim definidos, um prelúdio em um trem desgovernado tão misterioso quanto o prelúdio no engarrafamento em 8½ (seguidos por uma sucessão de planos aparentemente soltos na montagem onde críticos e jornalistas esbravejam sobre ele), filme dentro de filme (dentro de filme e dentro de filme mais uma vez) – se o cinema é um jogo de duplos, um filme que aborde a metalinguagem é como uma sala de espelhos – com os personagens se construindo de forma fragmentada, por meio de lembranças, trapalhadas ou passeios ocasionais. Há também do melhor delírio tresloucado visto pelas lentes de um judeu novaiorquino criado no Bronx, ou seja, nem um pouco semelhante com o que Fellini guardou na imaginação ao ter passado parte da sua vida na pequena Rimini; a cada cinco minutos somos bombardeados por alguma figura absurda; fãs obsessivos, chatos de grupos de caridade, groupies de qualquer famoso, empregadas tapadas, motoristas desajustados, velhos amigos desconhecidos, críticos de cinema que fazem ensaios que ninguém lê, grupos ufologistas, produtores intrometidos com o trabalho do autor… Poucos, como Woody, conseguiram retratar esse mal estar urbano com um impacto tão real e imediato, ainda que, obviamente, essa realidade caótica que encontramos esteja lá no meio de uma mega-estilização em preto-e-branco.
Dos cinzentos dias passados aos conturbados e escuros dias atuais, Gordon Willis trabalha como ninguém as variações das duas cores primordiais ao cinema, com tal preciosismo que a paleta de poucas cores chuta o filme para longe de qualquer contato com o real e o põe não em contato com um vislumbre de verdade, mas de redenção; afinal, isso é a arte. Aqui, nós podemos dar certo.
É nesse tom que se desenrola o climax do filme, pulando eixos, dispensando locações, nos chamando para uma convenção sobre o autor formada apenas por sombras, projeções e silhuetas, onde a mente confusa tenta se agarrar a um único momento que tenha feito a vida valer a pena. Afinal, já que “a comida nesse lugar é horrível e vem em porções pequenas”, o jeito é se agarrar ao que nos tornou fortes por um segundo. Ao som da mais do que clássica e emocionante Stardust, de Louis Armstrong, a lembrança que ele se agarra é tão pessoal e, ao mesmo, tão universal, comum a nós todos, algo que qualquer um poderíamos pensar, que nos faz ter a certeza que nessas tais obras confessionais que podemos, mais do que nunca, entrar em contato, nessa relação artista e espectador, e perceber o outro como um ser humano falho, e ainda assim, cheio de pequenas epifanias para testemunharmos. Como é que o Woody faz essas coisas?
A fagulha de humanidade que cada artista propõe encontrar em sua obra, para Woody, não exigiu uma dança, nem nada do tipo. Pelo contrário, o que precisou foi, apenas, de perdão pelas suas burradas e um companhia para não tornar seus dias tão solitários e enlouqecedores. Cruzando as alegorias hiperbólicas de Fellini, a secura e incoformismo formal de Bergman, a disciplina severa dos seus dramas mais sérios, a acidez nonsense dos seus primeiros filmes e o desespero hilário das suas melhores comédias, sem nunca afastar o espectador – apesar da total inversão e abandono de qualquer cartilha, o filme ainda é fácil de se assistir, se envolver e dar risada, afinal de contas – Woody fez, provavelmente, sua grande obra-prima. Esquecida, mas com a magia da descoberta que só Woody poderia oferecer em mais uma jornada atrás de redenção e sentido. And now for something completely different…
5/5
Ficha técnica: Memórias (Stardust Memories) – EUA, 1980. Dir.: Woody Allen. Elenco: Charlotte Rampling, Woody Allen, Sharon Stone, Tony Roberts, Tony Devon, Daniel Stern, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault, Irwin Keyes
14 de julho de 2010 at 18:16
Crítica linda.
14 de julho de 2010 at 20:10
boa crítica
14 de julho de 2010 at 23:53
é seu woody preferido mesmo. tem paixao nesse texto. eu não gosto tanto, mas é um trabalho notável. um negócio que eu entendi muito bem foi o que você falou sobre o filme ter tandos lados (isso quer dizer mais ou menos bastante material pra analise, discussão, esse tipo de coisa) e ainda sim ser tão leve, tão fácil. é engraçado, é divertido e além disso, é bonito de olhar. não preciso pedir muito mais que isso não.
15 de julho de 2010 at 1:09
Chorei. ;’)
Mas sério, pra mim esse é um dos 3 melhores do Woody… Quando o filme acabou eu só conseguia pensar: Obra-Prima!
E o seu texto tá foda…
15 de julho de 2010 at 22:47
texto incrível. deu vontade de rever.
16 de julho de 2010 at 13:22
Baixei, mas as legendas tavam foram de sincronia. D:
22 de julho de 2010 at 5:33
Finalmente vi e, puta merda, que filme lindo do caralho! *_____*
13 de julho de 2011 at 13:08
a critica ta linda e descreve bem o que é o filme (claro que de forma bem romantizada pelo fã que se revelou ser o Bruma),mas como o Baku eu não curtu muito esse aqui não.Não sei o que foi,acho que antipatia mesmo,mas é bem bom
13 de junho de 2012 at 21:29
nunca li uma crítica tão linda antes. Essa vai pros meus favoritos, já que pretendo relê-la outras vezes.
23 de julho de 2012 at 2:25
Acabei de assistir ao filme pela primeira e logo corri para net à procura de críticas afim de ver o que outros pensaram sobre o filme.
Eu adorei o filme. É quase como ler um diário em audiovisual de preto-e-branco.
Só não achei a forma tão fácil de entender assim. rsrs.. Talvez tenha sido o sono. Vou assisti-lo novamente.