- por Bernardo Brum

Encarado com menos cinismo do que é habitual, O Homem Sem Sombra levanta uma interessante questão: o rótulo de “filme B” é uma condição ou um estado de espírito? Melhor falando, os filmes considerados desse filão só podem ser considerados como tais quando tem orçamento minúsculo e falta de caras conhecidas pelo grande público, ou ao longo dos anos, o que era uma condição virou, ao criar seu nicho de público, suas abordagens em comum e ícones cult de algumas gerações, uma identidade singular de um tipo de cinema que deixou de depender do dinheiro colocado em sua produção? Os cineastas que fizessem a transição das películas “pobres” para o grande mercado da tecnologia de ponta e das grandes estrelas eram considerados apenas um nome nas fichas técnicas ou levariam para o alto escalão as características de estilo que o destacaram, atributos esses que muitas vezes não combinam com as tendências mercadológicas da indústria cinematográfica?

Visto por esse lado, a última película rodada por Paul Verhoeven em terras americanas é, incontestavelmente, um filme B: gore escatológico, atuações canastronas, cenas softcore aparentemente gratuitas e um claro espírito contracultural que o holandês carrega desde seus exploitations polêmicos e melodramas escandalosos, ainda que cercado de estrelas como Elisabeth Shue, Josh Brolin e Kevin Bacon e equipado com um dos trabalhos mais orgânicos (ou, se não quiser chegar a tanto, “bem elaborados”) de computação gráfica desde o surgimento de tal tecnologia. Um filme que, ainda que produzido por encomenda de uma grande produtora (e com todas as limitações narrativas que esse modo de produção impõe), não deixa de lado o espírito de filme de fundo de prateleira de videolocadora.

Como é comum no que acontece  nos filmes B, O Homem Sem Sombra foi considerado por grande parte do público mais uma subversão, ou melhor, uma corrupção da obra do ilustre romancista científico H. G. Wells, assim como nos anos cinquenta foi produzido o hoje já muito ultrapassado Guerra dos Mundos (refilmado, cinco décadas depois, com o mesmo espírito de Verhoeven de “podreira de alto orçamento” por Spielberg) e A Ilha dos Homens-Peixe, versão altamente esquizofrênica do italiano Sergio Martino de A Ilha do Dr. Moreau.

Em comum com este último, O Homem Sem Sombra tem a semelhança de tomar uma série de liberdades em relação a obra original e dar motivos de sobra para os fãs da obra original criticarem a sua pouca fidelidade e má qualidade evidente por ser “de estúdio”, atendendo mais às vontades de produtores do que aos questionamentos que o livro suscitava.  Se é por isso ou por outro motivo, esta livre adaptação de Verhoeven se atém apenas ao pensamento básico: de que o ser humano seria naturalmente “podre”.

Para Wells, qualquer cidadão de bem, quando visse que a lei não poderia mais capturá-lo, iria perder totalmente a noção de superego e exposição e fazer o que bem entendesse. Para Verhoeven, um indivíduo arrogante, desprezível e medíocre (apesar da sua extrema inteligência, ainda se vê preso a uma hierarquia de patrões) sairia de controle assim que fosse retirada de si uma das trava morais mais básicas: a de que “o inferno são os outros”. Ele nunca havia sido um bom indivíduo que caiu nas garras da corrupção – mas sim um verdadeiro filho da puta que nunca foi além por medo de passar décadas na cadeia ou ganhar uma pena de morte. A palavra usada no título (“hollow”, vazio, oco) denuncia a principal intenção do que Verhoeven queria retratar: ele já era alguém sem nada por dentro muito antes de sumir da vista de todos.

Assim, a preocupação do diretor não é a de quantos homens seriam corrompidos com esse “dom”, mas sim quantos indivíduos potencialmente nocivos finalmente veriam-se livres de suas amarras. Tônica de várias outras de suas obras: muitas pessoas, com um pouco de poder a mais, logo tornam-se hostis e arrogantes. Ou seja, indivíduos que, caso fossem agraciados com mais poder, logo agiriam de maneira totalitária, homicida e brutal.

Mesmo em um filme em que suas “asinhas” de estilo, narrativa e conteúdo são seriamente cortadas, Verhoeven não poderia deixar de perder a oportunidade de fazer suas gracinhas gorecore: Kevin Bacon realiza o sonho de todos que já se imaginaram invisíveis, vendo mulheres nuas sem elas saberem que ele está por lá provavelmente descascando a banana e aprontando mil e umas sacanagens pelas ruas (como assustar crianças e entrar na casa dos outros sem convite), além do cruel humor negro envolvendo cenas particularmente fortes (o surto histérico que o protagonista tem com um cachorro é tão tenso quanto hilário). Verhoeven fez, sem a produtora perceber, um filme B “travestido” – como diz a sabedoria popular, certos hábitos são difíceis de largar. Especialmente se os velhos hábitos envolvem nudez feminina e sangue em profusão…

3/5

Ficha técnica: O Homem Sem Sombra (Hollow Man) – 2000, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Kevin Bacon, Josh Brolin, Kim Dickens, Elisabeth Shue, Steve Altes, William Devane, Rhona Mitra

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