- por Luiz Carlos Freitas

Em 1902 Georges Méliès fez Viagem à Lua, tido como o primeiro filme de ficção-científica da história. Porém, o marco inicial do gênero veio 25 anos depois, com Metrópolis, do alemão Fritz Lang.

A obra se passa no distante ano de 2026 (a nós nem tanto), exatamente um século após o início da produção do longa. Nesse futuro roteirizado por Thea von Harbou, esposa de Lang, a tecnologia havia evoluído de forma espantosa e assumido as rédeas dos principais segmentos da sociedade. As cidades cresciam vertiginosamente e o homem cada vez mais se via dependente desse avanço. Porém, se por um lado isso facilitava a vida em comum, por outro acentuava mais ainda as diferenças de classes, dividindo Metrópolis em dois segmentos: os Filhos, burgueses que viviam na grande cidade, com todo o conforto que essa tecnologia poderia proporcionar, e os Operários, que viviam numa cidade-alojamento abaixo da superfície, dedicados quase que integralmente ao trabalho. E é basicamente nesse conflito de classes que o filme supostamente se baseia.

Antes de tudo, deve-se lembrar que, como boa parte das obras visionárias, o filme de Lang foi encarado como uma pedrada pelo público, e não só por mostrar tecnologias até então impensadas, mas muito mais por seu teor ideológico crítico. Lang coloca a ciência como uma escolha, e o homem culpado por subvertê-la ao mal (por vezes inconsciente, pela omissão; outras deliberadamente, para benefício próprio).

No tocante à ideologia, o caráter humano da obra era evidente já do argumento, sendo enriquecido ainda mais pelas metáforas e simbolismos, como o nome de alguns personagens ou situações que remetiam a passagens e profecias bíblicas, como Maria, a profetisa que anunciava a chegada de um Mediador (o homem que ajudaria a encontrar o perfeito equilíbrio entre os homens – seria um “cristo”, no caso) e sua citação à parábola da Torre de Babel (que – oportunamente – era o nome do prédio da administração central da cidade). Porém, a maior força é conferida à figura da Mulher-Máquina. Desenvolvida por Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), o cientista, para trazer de volta à vida sua esposa Hel, é ela quem promove grande parte do caos dentro da trama, assumindo as vezes de ‘falsa profeta’, colocando a tecnologia (se não usada em prol do desenvolvimento da humanidade como um todo) como o ‘Anticristo’. O próprio nome da finada esposa do cientista, Hel, poderia ser um anagrama de ‘Hell’, ‘Inferno’ em inglês (há quem o veja também como uma alusão ao sistema autoritário, à repressão).

Fritz Lang (que também escreveu boa parte do roteiro), como bom recorrente da escola do Expressionismo Alemão, faz do visual importante artifício narrativo. A cena em que o jovem Freder (Gustav Fröhlich) visita a cidade subterrânea pela primeira vez é um espetáculo. A grande máquina com os operários dispostos de modo geométrico e em movimentos sistêmicos, como se fossem meras peças dela, é um deleite visual. Sua explosão, com os homens sendo arremessados impressiona bem mais que qualquer efeito digital de hoje em dia (e não, não estou exagerando). Logo após, ele tem uma visão, onde a vê como a representação de Moloch, um antigo demônio pagão para o qual os homens sacrificavam suas crianças. Além disso, temos o próprio visual da cidade, com enormes arranha-céus, milhares de carros e até aviões cruzando entre os prédios, uma das várias cenas que, assim como o momento da inundação da cidade dos trabalhadores, nos faz questionar se realmente estamos vendo um filme da década de 20, tamanho realismo das imagens.

Essa priorização da imagem, da forma, já era característica do Expressionismo Alemão, movimento que compensava as limitações da falta de falas do cinema mudo por meio do excesso nas expressões dos atores e formas dos cenários. E o filme, tido comumente como maior representante do movimento, curiosamente marca início do fim do mesmo. Os momentos antológicos são vários ao longo da projeção, desde a já citada explosão da grande máquina, à revolta dos Operários, a inundação da cidade subterrânea, a ativação da Mulher-Máquina (incrível, incrível), a “bruxa” na fogueira … Enfim, se for continuar, terei de citar praticamente todos as cenas, quadro a quadro. Melhor deixar a sensação a quem for assistir.

O filme rendeu ao diretor um convite de Goebbels, braço direito de Hitler, para assumir a dirigência do ministério da cinematografia alemã (ele recusou o convite, mas sua esposa aceitou, mais tarde fazendo parte do Partido Nazista, enquanto ele se refugiara nos EUA), além de inúmeras críticas à sua visão extremamente pessimista do futuro. O caso, no entanto, não é com a tecnologia em si, mas às finalidades que o próprio homem dá a seu uso. Lang, em uma época que o cinema e a ciência como um todo ainda estavam em constante descoberta, já previa que o uso indiscriminado dos recursos poderia ser tão benéfico quanto nocivo à sociedade.

Metrópolis ganhou uma versão livremente adaptada em 2001, dirigida por Rintaro (sim, o nome dele é só isso mesmo), esta adaptada de um mangá inspirado no filme, mas que nem de longe se comparam ao original. A bem da verdade, a obra usa de um argumento futurista para mostrar exatamente o inverso, com o homem voltando ao seu estado mais primário, tendo de depredar o seu meio para sobreviver; é a representação do homem que, independente de todas as facilidades proporcionadas pela ciência, continua firme em sua essência: um animal.

Infelizmente, a obra original, de quase cinco horas de duração, foi retalhada ao longo dos anos, tendo muitos trechos perdidos (a maior versão, até então – brasileira, por sinal – tem pouco mais de 136 minutos). A bem da verdade, mesmo o ‘Coração’ mediando ‘Cabeça’ e ‘Mãos’ no final tomando um aspecto ‘piegas’ aos padrões de hoje (se analisado superficialmente), avaliando a obra como um todo, Metrópolis não se mostra datado, continuando uma obra extremamente atual e, indiscutivelmente, uma obra-prima das maiores.

5/5

Ficha Técnica: Metrópolis (Metropolis) – Alemanha, 1927. Dir.: Fritz Lang. Elenco: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Rudolf Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Erwin Biswanger, Heinrich George, Brigitte Helm, Fritz Alberti, Grete Berger, Olly Boeheim, Max Dietze, Ellen Frey, Beatrice Garga, Heinrich Gotho.

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