
- por Guilherme Bakunin
Em 1978, John Carpenter dirigiu uma das suas obras mais aclamadas, Halloween – A Noite do Terror. O que nem todos sabem é que o cineasta tem, no mesmo ano, um filme perdido. Escrito originalmente para o cinema mas feito para a televisão por motivos que ninguém até hoje sabe ao certo, Alguém Me Vigia é uma obra-prima. Em absolutamente nada fica devendo algo pra qualquer outro bom filme do gênero e qualquer outro bom filme do diretor.
Ao receber uma ligação de um perseguidor, Elizabeth, em desespero, se joga da janela do apartamento 4320 e comete suicídio. Algum tempo depois, Leigh Michaels, em fuga de Nova York devido a um amor não correspondido, compra o mesmo apartamento. Começa, pouco a pouco, uma perseguição psicológica que leva Leigh à beira da loucura e que irá explorar vertentes idealizadas por Hawks e Hitchcock, num suspense que é caótico e bastante psicológico.
Uma das belezas do filme está em sua base, sua construção. Não em relação aos plots mas aos personagens que fazem parte dele. É impossível não lembrar do Hitch, quando vemos em um filme personagens tridimensionais, com sentimentos e ‘issues’, que as vezes não são bem explorados mesmo, não por preguiça de quem escreve ou dirige, mas porque a vida não nos permite isso, até porque, a história é sempre contada de um ponto de vista particular da protagonista. Esta, inclusive, tem um desenvolvimento impressionante. Saiu de Nova York por uma decepção amorosa, tenta a vida em Los Angeles como mulher forte, madura e independente que é e encontra uma outra paixão, que de certa forma vai apoiá-la no mar de tortura – sempre psicológica – que está à sua espera. Durante boa parte do filme Leigh fala sozinha; está só, numa cidade estranha, em luta constante contra um psicopata e, além de tudo, foge de seus fantasmas individuais. Ainda sim, mantêm-se obstanada durante boa parte do ‘acontecimento’. Um desenvolvimento de personagem notável e muito bem realizado.
É claro que é um filme tecnicamente delimitado, por ser um trabalho da televisão. Mas quem está por trás das câmeras é John Carpenter, mente criativa. Ao invés de pirotecnia e ação, Carpenter cria um ambiente, uma atmosfera, trabalha com suspense ascendente, sem jamais deixar o ritmo cair, mesmo quando envereda pelos caminhos que dão sustância à persona de seus personagens.
É notável também perceber que o filme possui dois pontos de pico, ambos copiados de Janela Indiscreta. Não se trata de uma crítica, mas de uma observação. Tomando como base a maior e uma das mais influentes obra-primas de Hitchcock, cria um trabalho parecido, mas autoral. O primeiro pico, ocorre via telescópio no 4320, o segundo, no mesmo apartamento, numa cena caótica, megalomaníaca, remete a Um Corpo que Cai, a Psicose, a Os Pássaros e ao caralho a quatro, simplesmente porque é um clímax que todo o filme de suspense deve ter e que poucos – como vários do mestre gorducho – conseguem ter. O final é magnífico, o desenvolvimento é inteligente e o início é empolgante, créditos criativíssimos que delimitam e apresentam perfeitamente o campo de ação.
Alguém Me Vigia firmou-se, pela sua qualidade e mesmo sendo um trabalho para a televisão, pra mim, como o filme mais fantástico de John Carpenter, que é, por sua vez, um cineasta autoral, criativo e independente do mercado, que se destaca, com toda certeza, em todos os cenários de gêneros que representa. A versatilidade do mestre é evidente, o talento pode ser visto em seu trabalho que não é passageiro, mas que se entende por quase quatro décadas de cinema fino, leve e divertido.
5/5
Ficha Técnica: Alguém Me Vigia (Someone’s Watching Me!) – 1978, Estados Unidos. Dir: John Carpenter. Elenco: Lauren Hutton, David Birney, Adrienne Barbeau, Charles Cyphers
6 de outubro de 2009 at 16:23
porra, deve ser foda, QUÉRO VÊ
6 de outubro de 2009 at 18:57
deve ser bom mesmo. uma vez vi um pedaço no youtube em que rolava umas camera subjetivas por parte da protagonista, foda.
carpenter nunca foi de fazer firula com a camera, acho que o unico filme dele que se aproxima disso é The Thing.
7 de outubro de 2009 at 6:32
Eu acho que não falei dos créditos no comentário, mas porra, muito bons. Assistam mesmo que é genial
7 de outubro de 2009 at 12:34
Eu já vi os creditos desses filme, tentam fazer um negocio Intriga Internacional, achei meio escroto.
11 de outubro de 2009 at 2:35
[...] Alguém Me Vigia - O suspense pra tv que deixa aquele Encurralado do Spielberg completamente embaraçado. Hitchcock não poderia trabalhar melhor nesse que é seu filme, só que dirigido com muita propriedade pelo Carpenter [...]
11 de outubro de 2009 at 8:16
Troy, eu acabei de assistir aqui e é foda. Não chega a entrar no meu Top 5 do Carpenter, mas é realmente excelente. Totalmente Hitchcock.
11 de outubro de 2009 at 8:20
E aquela cena no final em que a protagonista está presa dentro do apartamento junto com o perseguidor e a gente SABE disso, mas não consegue achar o maldito, é completamente angustiante.
14 de janeiro de 2010 at 17:12
[...] 6: Alguém Me Vigia, por Guilherme Bakunin + Os Aventureiros do Bairro Proibido, por Luiz Carlos [...]
13 de julho de 2011 at 12:45
Eu tenho o filme americano. Mas têm legendas em espanhol.
16 de outubro de 2011 at 23:08
Fiquei interessada. Onde você assistiu? Viu em inglês? =)
17 de outubro de 2011 at 13:46
Carol, eu baixei pela internet. Em sites de torrent você encontra fácil. Acho que vi com legendas em inglês.